Sabrina Noivas 62 - Marry In Haste

"Case-se comigo. Louis Mathieson pedira Jade em casamento em um momento de intensa emoo. Depois, compreendendo que ela ainda no estava preparada para a vida a 2, rompera o romance. Agora era ela quem vinha lhe propor casamento...No 1 casamento de verdade, mas sim 1 arranjo de convenincia. Afinal, ele precisava lutar pela guarda do pequeno Matthew. E para isso necessitava de 1 esposa... urgente! Jade Adams no podia negar ajuda ao homem com quem sempre sonhara... Nem tampouco ao pequeno Matthew, cujo destino estava em jogo. Mas ser que seu corao suportaria 1 casamento apenas de aparncias?

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1997. Gnero: Romance histrico contemporneo
Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I
Hank!  Jade Adams chamou, em voz alta, batendo  porta do chal que pertencia a seu padrinho, em Paradise Lake.  Hank...! Voc est a?
Mas no obteve resposta. A porta continuava fechada, enquanto o vento soprava cada vez mais forte e uns poucos flocos de neve caam, aoitando rvores e vidraas.
Com uma apreenso crescente, Jade bateu as mos na gola e mangas do casaco, para livrar-se da neve que ali se acumulava. A porta estava apenas encostada, ela constatou, experimentando a maaneta. Abriu-a e atravessou o vestbulo em direo  sala de estar, caminhando a passos largos.
Havia tentado entrar em contato com Hank Mathieson, nos ltimos trs dias. Como no obtivesse resposta, telefonara para os vizinhos mais prximos e perguntara por ele. Mas ningum o tinha visto.
Por isso Jade tinha dirigido por duas horas e meia, sob um forte temporal, s para procurar o padrinho.
A sala do chal estava quase s escuras. A nica luminosidade vinha de uma arandela que pendia da parede, lanando um suave facho amarelado no ambiente. As janelas, que davam vista para a baa, estavam fechadas, cobertas por pesadas cortinas azuis. Naquele frio anoitecer de novembro, no se poderia mesmo ver muita coisa da bela paisagem local.
Na lareira, algumas achas ardiam, em vivos tons alaranjados.
O nervosismo crescia no ntimo de Jade, que tornou a chamar o padrinho:
 Hank! Oh, Deus, onde voc est?
De repente algo despertou-lhe a ateno e ela voltou-se na direo de uma grande poltrona, prxima  lareira. Havia algum sentado ali, Jade constatou, aproximando-se, com o corao aos saltos:  Hank,  voc? Est tudo bem?
Mais uma vez, no obteve resposta. E por um instante Jade pensou que seu velho temor tivesse se transformado em realidade...
No houve tempo para cogitar no assunto. O vulto na poltrona ergueu-se para anunciar, numa voz grave e pausada:
	Hank no est aqui.
Jade recuou um passo. Conhecia muito bem aquela voz. Ainda que se passassem vrios sculos, ela jamais a esqueceria.
	 voc, Louis?  indagou, num sussurro. E perguntou-se se no estaria sonhando. No era possvel que Louis Mathieson estivesse ali! Segundo ouvira dizer, ele continuava morando em Nova Orleans, atuando como reprter numa emissora de televiso, viajando vez por outra para realizar reportagens especiais.
Esse era o trabalho que Louis tanto amava... E que Jade, durante o curto perodo de relacionamento entre ambos, aprendera a odiar.
Nos quatro meses em que haviam namorado, Jade tentara apoiar Louis profissionalmente, acompanhando-o em vrios encontros ou entrevistas. E logo descobrira que no havia nada de romntico em viajar incessantemente de um lado a outro do pas, sem tempo sequer para visitar os principais pontos tursticos dos lugares... Tampouco era fascinante ficar sozinha em suites de hotis luxuosos, durante horas a fio, esperando que Louis retornasse de seus compromissos.
	Sou eu mesmo, Jade Adams.  A voz do homem que um dia fora o centro de sua vida interrompeu-lhe as recordaes.
Em seguida Louis ergueu-se, fazendo com que Jade recuasse um passo.
Vestindo cala de flanela caqui e um suter de l com desenhos em degrade que variavam do bege ao marrom, Louis continuava sendo o homem belo e atraente de sempre.
Jade estremeceu. O corao parecia saltar-lhe no peito, tamanha era a emoo que a dominava... Uma emoo que ela precisava esconder, a qualquer custo.
Nada a havia preparado para encontrar Louis Mathieson ali, naquele final de tarde sombrio, em Paradise Lake. E agora era preciso manter o controle, para no humilhar-se diante do homem por quem seu corao ainda pulsava.
	O que...  ela balbuciou, irritada consigo pelo tremor incontrolvel da voz.  O que voc est fazendo aqui?
Eu poderia perguntar o mesmo  Louis retrucou, fixando nela os olhos azuis-turquesa, com uma expresso de arrogncia e desafio.
Jade suspirou. Se pudesse, obedeceria ao impulso de sair correndo dali, como uma garotinha assustada. Mas precisava reassumir o controle... E rpido.
Reunindo as foras que ameaavam abandon-la, ela ergueu os olhos verdes para Louis. E afetando uma segurana que estava longe de sentir, respondeu:  Vim para visitar o seu pai. Tentei ligar para ele nos ltimos dias, mas no obtive resposta.
	E isso a deixou preocupada?  A pergunta de Louis tinha um toque de ironia.
	Claro  Jade respondeu, ignorando a provocao.
	E assim voc se arriscou a dirigir de sua casa at aqui, sob uma tempestade de neve, s para ver se meu querido papai estava bem.
	Sim  Jade assentiu, num tom seco. Mas seu corao continuava pulsando descompassado, causando-lhe uma sensao de sufocamento.
Caminhando lentamente, Louis pressionou um interruptor de luz, na parede ao lado da lareira. No lustre que pendia do teto vrias lmpadas minsculas se acenderam, lanando uma delicada claridade no ambiente.
Depois de fitar Jade por um longo momento, ele afirmou:
	Estou sinceramente impressionando.
Por um instante Jade perguntou-se se Louis estaria falando dela, ou de sua preocupao para com o velho Hank Mathieson. De qualquer forma, era bvio que Louis a provocava delibera-damente, para uma longa discusso.
S que dessa vez Jade no estava disposta a entrar na briga. Isso j ocorrera com muita frequncia, no passado. Mas os tempos haviam mudado, ou melhor: ela j no era a mesma de antes. E sua voz soou firme, ao dizer:
Vim aqui para ver Hank e no para discutir com voc.
A resposta pegou Louis de surpresa. Com um meio sorriso, ele comentou:  E a segunda vez que voc corre da briga...
Jade sabia que ele estava se referindo a um fato ocorrido no passado...
Philip e Nina Carmichael, os melhores amigos de Louis, haviam morrido num acidente areo. E ela no estivera a seu lado, para apoi-lo naquele momento difcil.
Louis certamente a estava cobrando pelo que considerava, no mnimo, uma cruel omisso.
Apenas, Louis no poderia saber que ela s tomara conhecimento do acidente vrios dias depois.
Na noite em que ocorrera a tragdia, Jade estava num hospital de Los Angeles. Ainda que soubesse do fato e quisesse voltar a Nova Orleans para ficar ao lado de Louis, os mdicos no permitiriam. E usariam um argumento imbatvel, para convenc-la: se ela viajasse para enfrentar uma situao de forte tenso emocional, poderia perder o beb... O que por sinal acabara acontecendo trs dias mais tarde. Mas esse era um segredo que ela no dividira com Louis, nem com qualquer outra pessoa.
Na verdade, ningum sequer soubera de sua gravidez. Jade sofrera, sozinha, a angstia de perder o filho que pretendia criar com todo o amor de seu corao. Por quantas vezes, naqueles dias terrveis, ansiara por Louis e seus braos quentes, sabendo que s ele poderia confort-la! Mas acabara vencendo aquele trecho terrvel de sua vida. E tornara-se mais forte, embora soubesse que as marcas do sofrimento a acompanhariam para sempre.
Com um leve meneio de cabea, Jade afastou aquelas lembranas dolorosas. Ia perguntar por Hank, mas Louis adiantou-se:
 Meu pai no est aqui  tornou a dizer, pegando o copo que havia deixado sobre o brao da poltrona, com um restinho de brandy. Tinha se servido daquele drinque para ver se conseguia relaxar, antes de desfazer a bagagem e acomodar-se no chal.
A viagem de Nova Orleans at ali havia sido exaustiva... E tensa, pois Louis sabia que o retorno a Paradise Lake lhe traria muitas lembranas, que deveriam continuar no passado: Mas, por outro lado, ele precisava de um refgio onde pudesse descansar e refletir. E quando o pai oferecera-lhe o chal para passar alguns dias, Louis no relutara em aceitar.
Ao ouvir a voz de Jade, minutos antes, julgara estar sonhando. Porm ali estava ela, muito real e mais bonita do que nunca. Alis, mais bela do que quando lhe aparecia em sonhos, o que acontecia com uma frequncia angustiante.
Os cabelos, bem mais longos, caam-lhe em suaves ondas,
abaixo dos ombros. O tom ruivo era semelhante ao das folhas das rvores, quando iluminadas pelo sol de outono.
Nos olhos verdes havia uma expresso diferente, resultado sem dvida da maturidade que Jade no possua quando fora sua namorada, Louis pensou, tomado por uma forte emoo.
	Voc sabe do paradeiro de Hank?  ela perguntou, interrompendo-lhe o fluxo de pensamentos.
	Quem?  Louis indagou, com ar distante.
	Ora, de quem estamos falando?  ela retrucou, impaciente.  Do seu pai,  claro.
	Claro  Louis repetiu, com um suspiro. E explicou: Meu pai foi para Portland.
Jade arregalou os olhos, numa expresso de espanto:
	Mas ele sempre me avisa, quando vai para l!
Louis fez um gesto vago e sorveu o ltimo gole de brandy que restava no copo.
	Est servida?  ofereceu.
	No, obrigada  Jade recusou. A ltima coisa que faria no mundo seria compartilhar um drinque com aquele homem. E retomou o assunto:  Tem certeza do que acaba de afirmar? Hank foi mesmo para Portland?
Louis respondeu com um gesto afirmativo de cabea, antes de acrescentar:
	Liguei para meu pai no fim da semana passada e combinamos de nos encontrar em Portland, hoje cedo. Ele me disse que ia ficar l durante alguns dias, a fim de cuidar de alguns assuntos referentes ao jornal.
De fato, Hank Mathieson possua uma srie de pequenos negcios, inclusive um dirio em Portland. Esse era um dos motivos pelos quais ele viajava para l com frequncia.
Jade suspirou, desanimada. Ao que tudo indicava, havia viajado de Portland a Paradise Lake por nada...
Ao menos agora tinha certeza de que o padrinho estava bem. E at merecia um puxo de orelhas, por no t-la avisado que ia para Portland!
Mas, pensando bem, o fato de ele ter marcado um encontro com Louis j era motivo suficiente para no inform-la de sua presena na cidade.
Desde o rompimento do noivado com Louis, um ano atrs, Jade recusara-se a falar do assunto com Hank. A princpio ele insistira em saber o motivo da separao. Mas Jade mantivera-se num obstinado silncio. Assim, Hank acabara cedendo e respeitando sua vontade. Nem sequer citava o nome do filho, quando conversava com ela. E Jade sentia-se grata por essa delicadeza.
De repente ocorreu-lhe que se Hank no regressasse logo de Portland, ela ficaria sozinha com Louis no chal... Essa constatao a fez estremecer novamente.
"Calma", Jade ordenou-se, em pensamento, lembrando-se de que j havia se libertado da atrao que um dia sentira por Louis Mathieson e que ele no mais tinha o poder de fascin-la, como antes.
	Voc e meu pai se desencontraram  Louis concluiu, perguntando-se por que, afinal, Hank no informara Jade de sua ida a Portland.
	E verdade  ela concordou, com um suspiro.  Ao menos sinto-me aliviada por saber que ele est bem.  Erguendo a gola do casaco, acrescentou:  E agora  melhor pegar o caminho de volta, antes que a noite caia.
	Voc deve estar brincando!  Louis exclamou, com um misto de incredulidade e ironia.
	Pode apostar que no  ela respondeu, num tom srio, dirigindo-se  porta.
	Mas no conseguir chegar muito longe  Louis sentenciou, aproximando-se de uma ampla janela e abrindo as cortinas.
	Por que tanta preocupao?  Jade voltou-se, com uma expresso de desafio.  No sou de acar e, portanto, no vou derreter por causa de alguns flocos de neve.
Louis franziu o cenho, com ar de censura:
	Brincadeira tem hora, srta. Jade Adams. Voc por acaso no ouviu falar da nevasca que est se armando?
	Nevasca?  ela repetiu, franzindo a testa.
	Sim. Todas as emissoras de rdio deram a notcia. Voc no ouviu, enquanto vinha para c?
Como poderia? Jade pensou, meneando a cabea em sinal de negao, lembrando-se de que o aparelho de som de seu velho carro estava com defeito... E ela sempre se esquecia de consert-lo. Era verdade que o vento forte e o cu carregado a haviam deixado apreensiva. Mas Jade no dera muita importncia ao fato. Sentia-se preocupada demais com seu padrinho Hank, para pensar nas condies do tempo.
	Pois bem...  disse Louis, cruzando os braos.  Se voc tivesse ouvido o rdio, saberia que o vento e esses poucos flocos de neve foram apenas o prenncio de uma forte nevasca. A principal rodovia de acesso para c no est to ruim. Mas as estradas secundrias ficaro intransitveis em pouco tempo. Alis,  bem possvel que j estejam. Veja...
Jade aproximou-se da janela aoitada pela ventania. Flocos de neve batiam contra a vidraa, com uma violncia incrvel. No pouco tempo transcorrido desde sua chegada, o clima havia piorado consideravelmente.
O prprio lago Paradise, ao p das colinas que circundavam o chal, havia desaparecido por trs de uma densa cortina de chuva. Nuvens cor de chumbo, acumulavam-se a leste, prenunciando mais neve e mais ventos, que sopravam com uma fora cada vez maior.
	Seria uma loucura sair nesse tempo  Louis opinou. No se enxerga um palmo diante do nariz.
	 verdade.  Jade foi obrigada a concordar.
	Parece que voc ter de passar a noite aqui.
	Mas eu no posso!  ela exclamou, angustiada.
Quando ligara para Hank, da editora da revista onde trabalhava como redatora free-lance, e no obtivera resposta, ficara apavorada.
Pensando melhor, Jade se perguntava se no deveria ter ido at em casa, para ver se no havia mensagens na secretria eletrnica. Mas em vez disso ela simplesmente havia deixado a editora, entrado no carro e seguido para Paradise Lake. Agora, ali estava o resultado de sua atitude impulsiva...
Com um nervosismo crescente, ela observava a nevasca l fora, rezando silenciosamente para que esta cessasse o mais depressa possvel. Mas no fundo sabia que estava acalentando uma esperana intil. Seria um verdadeiro suicdio aventurar-se a dirigir de volta a Portland, naquele momento.
	Voc teve sorte de chegar at aqui sem problemas  Louis comentou.
	Pois vou me sentir ainda mais feliz quando essa nevasca parar...  ela retrucou, sem conseguir disfarar a ansiedade.
	Isso no vai acontecer to cedo  Louis sentenciou.  O melhor que voc tem a fazer ...  Interrompendo-se, ele assumiu uma expresso sarcstica:  Ah, agora compreendo o motivo de tanta inquietao. Voc prefere sair nesse temporal, a ficar comigo sob o mesmo teto.  isso?
Jade corou violentamente. Louis havia acertado em cheio, embora ela detestasse admitir. E baixando os olhos, retrucou:  No se trata disso. Eu apenas...
	Est apavorada com a ideia de ficar a ss comigo  ele completou.
	E que tenho um compromisso  ela mentiu, com as faces afogueadas.
Louis reagiu surpreso, erguendo as sobrancelhas, sem ocultar uma ponta de curiosidade.
Jade mordeu o lbio inferior, ainda com os olhos baixos. Era horrvel mentir. Mas, pensando bem, ela de fato tinha um compromisso... No para aquela noite, mas para dali a oito dias. E no com um namorado, como Louis parecia estar pensando... Mas sim com sua amiga e editora, Vernica Chapman.
	Voc disse... um compromisso?  ele perguntou, imprimindo  voz um forado tom casual, que no convenceria nem mesmo o mais distrado dos seres humanos...
	Sim  Jade confirmou, num tom idntico, sem ousar encar-lo.  Que mal h nisso?
	Nenhum, ora.  Louis deu de ombros.  Mas acho que ele ficar desapontado, pois voc no poder chegar a lugar algum, nesta noite.
	Tem razo  Jade concordou, derrotada. Num impulso, caminhou at a porta e abriu-a.
Uma rajada de vento soprou com violncia, quebrando o clima agradavelmente aquecido do ambiente.
	O que pretende fazer?  Louis reclamou, irritado.  Transformar-nos em pinguins?
	Desculpe.  que esqueci meu carro ligado.  E Jade saiu, fechando a porta.
Louis meneou a cabea. Um sorriso insinuou-se em seus lbios, mas j no havia nele o menor trao de ironia.
Naqueles poucos minutos, tinha visto Jade ser assaltada por uma srie de sentimentos que variavam do medo  resignao, passando pela raiva, doura, surpresa, emoo... Isso provava que, por mais que tentasse disfarar, Jade Adams continuava sendo a mesma pessoa sensvel de antes.
Louis suspirou, comovido. Tambm ele havia tentado ocultar seus sentimentos, diante da mulher que um dia fora a razo de sua vida.
...Teria conseguido? Ou Jade j tinha percebido a forte emoo que ameaava domin-lo, desde o primeiro momento em que a vira?
	Boa pergunta  ele disse, baixinho, enquanto o sorriso desaparecia-lhe dos lbios. Era ruim admitir, mas Jade ainda tinha o poder de afet-lo... E esse era o tipo de complicao que Louis no precisava, sobretudo quela altura de sua vida.
Quando o pai oferecera-lhe o chal para que passasse alguns dias, Louis de bom grado aceitara o oferecimento. Afinal, ele precisava mesmo de um lugar onde pudesse refletir calmamente sobre o difcil momento que estava atravessando.
Enquanto sua advogada se empenhava em descobrir as sadas legais para a situao, Louis preferia gastar o tempo se fortalecendo e refletindo, a fim de se preparar para a rdua batalha judicial que o esperava.
Aos trinta e dois anos, Louis Mathieson j aprendera muitas coisas... Uma delas era procurar o equilbrio entre os sentimentos e a razo. Outra, era estar sempre preparado para o imprevisvel... Ou ao menos considerar todas as possibilidades, para no ser colhido de surpresa pelos duros golpes do destino.
Aprendera isso ao longo dos anos, inclusive com Jade Adams, a quem tivera de magoar, no porque quisesse, mas unicamente por amor. Quem poderia entender isso? S mesmo quem estivesse passado por uma situao semelhante.
Sim... Fora muito difcil perder Jade Adams. E Louis sabia que ainda no se refizera do golpe. Sabia tambm que, a despeito dos intensos esforos para apag-la da memria, ela continuava ocupando uma posio importante em seu corao solitrio. Enfim, o tempo o ajudaria a sufocar, de uma vez por todas, o profundo amor que ainda sentia por aquela mulher.
Louis passou a mo pelos cabelos negros, num gesto de tristeza e cansao. Bem que havia adivinhado que o regresso a Paradise Lake lhe traria uma srie de lembranas incmodas. E talvez o fizesse desejar o impossvel...
O som da porta se abrindo trouxe-o de volta  realidade.
Jade acabava de entrar, trazendo uma valise, que depositou no cho.
	Bem, onde posso me instalar?  perguntou, tirando o casaco marrom salpicado de flocos de neve e ajeitando-o no encosto de uma cadeira prxima  lareira.  Aqui ele secar mais rpido  comentou, como se para si.
Louis no pde evitar de olh-la longamente, detendo-se para observar cada curva daquele corpo que um dia possura, com toda a fora de sua paixo. Um corpo que jamais esquecera e que, por um instante, ele desejou novamente.
	E ento?  ela insistiu.
	O que disse?  Louis perguntou, com ar distante. Ela suspirou, impaciente:
	Quero saber aonde vou dormir.
	Aceita sugestes?  ele provocou-a, com ar maroto, lembrando-se de como adorava ver Jade enrubescer, nos tempos de namoro.
E era justamente isso que estava acontecendo agora, mas com uma diferena: em vez de sorrir, embaraada, ela o fuzilava com os olhos cor de esmeralda:
	Ser que voc poderia me poupar de suas piadinhas infelizes, Louis Mathieson?
Forjando o ar mais inocente do mundo, ele perguntou:
	Voc no quer nem mesmo saber qual seria minha humilde sugesto?
	Definitivamente, no!  ela respondeu, num tom que no admitia rplicas.
Mas Louis insistiu na brincadeira:
	, acho que seu... namorado no aprovaria.  Por nada no mundo ele deixaria transparecer o cime que o aguilhoava, s de imaginar Jade nos braos de outro homem. 
	Que namorado?  ela indagou, sem entender.
	Ora, voc mesma disse que tinha um compromisso para hoje  noite, no?
	Oh, claro  ela assentiu. E resolveu desfazer aquele tolo mal-entendido.  Para ser franca, eu no ia me encontrar com meu...
	No tenho nada a ver com sua vida particular  ele apartou, num tom subitamente rspido.  Portanto, esquea as explicaes.
	Mas eu gostaria de esclarecer que...
	Estou usando a sute de hspedes, aqui no andar trreo  Louis tornou a interromp-la.  Creio que o quarto que voc costumava ocupar, no segundo pavimento, est vago e a sua inteira disposio.
	Certo.  Desistindo do que queria dizer, Jade ergueu a valise e caminhou em direo  escada de madeira que conduzia ao andar de cima.
Louis aproximou-se e ofereceu:
	Deixe que eu leve sua bagagem.
	No se trata de bagagem, apenas de meu computador e material de trabalho. Mas agradeo do mesmo jeito.
	Quer dizer que no trouxe nada para usar aqui?  Louis indagou, surpreso.
	No. Decidi vir de repente. Nem me ocorreu passar em casa para pegar umas roupas.
	Se quiser as minhas...  ele ofereceu, com um sorriso que parecia iluminar todo o ambiente ao redor  posso emprestar. S que ficaro largas para voc.
	No se preocupe  ela recusou, num tom delicado, mas firme.  Sempre costumo deixar algumas roupas, no quarto.
	Devem estar empoeiradas.
	 possvel que sim  Jade assentiu.  Mas acharei um jeito de me arranjar, no se preocupe.
	Certo.  Louis a fitava com intensidade, como se lhe devassasse a alma.  Bem, j que no preciso me preocupar com voc, posso repetir o convite para um drinque... J lhe ofereci antes, mas voc recusou.  Ele fez uma pausa.  Por acaso no mudou de ideia?
	No  Jade respondeu, sem pestanejar. Quanto menos tempo ficasse com Louis, melhor. J fazia um ano que ela vinha lutando para manter-se ocupada durante a maior parte do tempo, s para no pensar naquele homem. Aceitar seu convite para um drinque, quela altura, seria uma imperdovel insensatez.
Mas apesar de tudo Jade no conseguiu evitar de olh-lo atentamente, temerosa de que ele lhe ouvisse as batidas descompassadas do corao.
Louis Mathieson havia perdido alguns quilos, desde a ltima vez em que o vira. Mas isso, longe de prejudic-lo, o havia deixado ainda mais elegante. Os cabelos negros e lisos eram a moldura perfeita para o rosto msculo, de traos regulares: o nariz afilado, os lbios sensuais, o queixo proeminente... E os olhos! Azuis-turquesa como um mar acariciado pela brisa,
numa tarde de vero. Jade jamais vira olhos to impressionantes como os daquele homem. Louis Mathieson parecia no apenas olhar para ela, mas atravs dela, adivinhando-lhe os mais secretos pensamentos.
"Chega", Jade se ordenou, em pensamento. "Voc est se expondo demais e isso  perigoso".
Tomando flego, ela comeou a subir as escadas.
	Espere  Louis chamou-a, num tom suave.  Espere um momento, Jade...
Ela engoliu em seco. Quis fugir, mas no conseguiu. Com o corao aos saltos, voltou-se e aguardou que ele continuasse:
	H algo que voc precisa saber.
Jade respirava to rpido, que o ar comeava a lhe faltar. Era preciso tomar uma atitude, ela pensou. Ou se libertava do olhar feiticeiro de Louis agora, ou acabaria se tornando novamente escrava daquele homem, como acontecera no passado. E essa ltima hiptese estava fora de cogitao.
Assim, Jade reuniu as foras que lhe restavam para dizer:
	Desculpe, mas no me sinto com disposio para conversar.
	Acontece que preciso lhe contar...
	Sinto muito, mas realmente no estou interessada no que voc tem a dizer.
	Touchl  Louis exclamou, sorrindo. Mas a decepo era evidente em seus olhos.  Voc continua sabendo ser ferina, quando quer.
	No foi minha inteno ofend-lo.
	Imagine se fosse!  Louis tentava gracejar.
J arrependida por ter sido to cruel, Jade imprimiu um tom suave  voz, para explicar:
	Eu no quis ser rude com voc.  que estou muito cansada. Fiz uma longa viagem de Portland at aqui e...
	Eu compreendo  ele interrompeu-a, forando um sorriso  Boa noite, Jade.
	Boa noite, Louis.
	Espero que amanh cedo voc se lembre de que tentei avis-la...  ele disse, baixinho, aps alguns instantes.
Mas Jade, j quase no alto da escada, naturalmente no poderia ouvi-lo.

CAPITULO II

Jade Adams abriu a valise e retirou o micro-computador. Abriu-o sobre uma mesinha de canto e verificou se no havia mensagens. Afora um aviso da editora da revista Everywoman, dizendo que um artigo seu seria publicado no nmero especial de Natal, no havia outros recados. Jade fechou o micro e olhou ao redor.
"Este quarto  seu, de hoje em diante. E esta casa ser o seu lar", o padrinho Hank lhe dissera, ao receb-la em Paradise Lake, numa noite fria como aquela. Jade tinha, ento, dezesseis anos. E acabara de perder o pai, que era sua nica famlia.
Hank Mathieson e Steve Adams, pai de Jade, tinham sido grandes amigos por mais de quarenta anos. Por isso Steve o convidara para ser padrinho da filha.
Desde a morte de Steve Adams, o velho Hank assumira seu lugar, com relao a Jade. Na verdade, sempre a amara como a filha que jamais tivera. E a recproca era inteiramente verdadeira.
Mas daquele dia em diante ele mostrara-se ainda mais carinhoso. E no a abandonara em momento algum. Sempre estava presente e pronto a apoi-la ou aconselh-la. Sabia compreend-la como ningum no mundo. E no interferia excessivamente, nem tampouco se intrometia em sua vida pessoal.
Naquela poca, Louis estava fazendo um curso de aperfeioamento profissional na Europa. Alis, fazia muito tempo que ele vivia fora de Paradise Lake. Mudara-se para outro Estado, ao entrar na faculdade. E, depois de formado, a vida profissional o levara a vrios outros pases.
Por algum capricho do destino, Jade e Louis passaram anos sem se encontrar. Jade sempre estava fora quando ele ia a Paradise Lake, o que no acontecia com muita frequncia. Assim, ela lembrava-se de Louis como um rapa/ educado, bonito e um tanto desajeitado... Que nada tinha a ver com o homem atraente e confiante que sorria no porta-retratos colocado sobre a lareira.
Havia outras fotos de Louis, espalhadas pelo chal. Mas aquela, particularmente, chamava a ateno de Jade... Ou melhor: despertava-lhe uma emoo especial.
Secretamente, ela estudava e admirava aquele rosto de traos perfeitos, onde os olhos azuis destacavam-se, misteriosos... Chegava mesmo a tecer sonhos romnticos onde Louis a salvava do perigo, ou fazia-lhe uma longa serenata, em noites de luar. Como toda adolescente, Jade despertava para o amor, naquela poca. Louis era seu modelo de homem ideal... E um dia o sonho se tornaria realidade, de maneira rpida e imprevisvel.
 Chega  Jade ordenou-se, em voz alta. Era hora de fechar a porta das recordaes, ainda que esse esforo lhe custasse muito, inundando-lhe os olhos de lgrimas.
Caminhando devagar pelo quarto, cujos mveis continuavam na mesma disposio de tantos anos atrs, Jade sentia-se tomada por uma intensa emoo.
Como amava aquele lugar e o forte conceito de famlia, de lar, que ele lhe trazia. E devia tudo isso a Hank e sua infinita bondade.
Um sorriso insinuou-se, por entre as lgrimas. E Jade decidiu no se deixar levar pela  tristeza... Precisava se refazer, em vez de entregar-se s recordaes. E o melhor modo de conseguir isso era tomar uma boa ducha.
Ou um banho de imerso seria mais apropriado? Ela se perguntava, a caminho da porta no fundo do quarto, que dava para um banheiro privativo.
Ali estava a velha banheira francesa, uma verdadeira pea de antiqurio, com ps em estilo rococ. Jade no hesitou: abrindo as torneiras de gua quente e fria, regulou a temperatura da gua e decidiu esperar que a banheira se enchesse. Um banho morno era mesmo ideal, naquela noite.
L fora a neve continuava a cair. E a temperatura atingia vrios graus abaixo de zero. Felizmente o sistema de aquecimento do chal era perfeito.
Voltando ao quarto, Jade despiu-se, ajeitando as roupas cuidadosamente sobre uma poltrona com estofado de motivos florais, onde a cor rosa predominava. Alis, esse era o tom geral da decorao, idealizada por Hank, h muito tempo.
Os mveis, todos de cerejeira, combinavam bem com as almofadas e cortinas, suavemente estampadas em vrios tons de rosa. At o tapete, salmo, combinava com o estilo geral.
Jade alisou a colcha de algodo, num gesto delicado.
O quarto, muito limpo e arrumado, estava pronto para receb-la... Como sempre! Hank fazia questo de mant-lo assim. E o mesmo ocorria com o quarto de Louis.
Jade lembrou-se, ento, que Louis havia dito que ocuparia o quarto de hspedes. Por qu, se possua suas prprias acomodaes?
Bem, essa era uma pergunta que no lhe dizia respeito, ela pensou, voltando ao banheiro.
A gua estava no ponto ideal. Num pequeno armrio a um canto havia toalhas e vrios outros objetos de toalete.
Jade sorriu ao encontrar o frasco de sais de banho que trouxera para ali, h tantos anos. Naturalmente, seu contedo havia sido renovado. Mas o frasco, talhado em vidro azul-es-curo, multifacetado, era um objeto valioso e no apenas sob o ponto de vista material. Datando do sculo XVII, vinha da Itlia e trazia as iniciais do arteso que o fabricara. Valeria uma pequena fortuna, em qualquer antiqurio. Mas Jade no o venderia nunca, por um motivo muito simples: o frasco pertencera a sua me, que ela jamais tivera chance de conhecer, pois morrera no parto.
Ao completar quinze anos, o pai lhe dera o frasco de presente, acompanhado de um carto cuja mensagem Jade chegara a decorar, de tanto ler:  Esta pea pertenceu a sua me. Ela a recebeu de sua av, quando completou quinze anos... Que por sua vez recebeu-a da mesma forma...
Creio que se sua me estivesse conosco, faria questo de presente-la, nesta data. Seja feliz, filha. E, se um dia for me, continue seguindo essa singela tradio.
 As pessoas passam...  Jade disse, baixinho.  E os objetos permanecem, impregnados delas.
Tomando o frasco na mo, girou a tampa delicada e aspirou o perfume dos sais ali guardados.
Um aroma de sndalo, muito suave, espalhou-se no ambiente enquanto Jade salpicava a gua morna com os sais.
"Por que ser que deixei esse frasco aqui?", perguntou-se, depositando-o de volta no armrio. "Por que no o levei para meu apartamento, em Portland?"
A resposta era muito simples, Jade pensava, mergulhando na gua com uma sensao de prazer.  que ali, naquele quarto, havia um sentido muito mais forte de lar, do que em todos os outros lugares onde havia morado.
	Que delcia  ela murmurou, recostando-se na banheira e fechando os olhos. H quanto tempo no se permitia um momento de relaxamento! E como isso era importante, no apenas para a sade do corpo, mas tambm da alma.
Jade ficaria ali indefinidamente, a noite inteira se pudesse-Mas a gua comeou a esfriar. Era hora de sair do banho, vestir algo confortvel e descansar um pouco. Depois, talvez devesse consultar o catlogo telefnico e ligar para a pizzaria mais prxima.
Claro que um jantar caseiro seria uma opo melhor. Mas a perspectiva de encontrar Louis na cozinha ou na sala era desencorajadora. O teste fora rduo, na breve conversa que tivera com ele. E Jade no queria arriscar-se novamente... Ao menos no naquela noite.
Levantando-se, ela espreguiou-se languidamente, antes de sair da banheira. Um grande espelho pendurado atrs da porta refletiu sua imagem de corpo inteiro1.
Detendo o gesto de pegar a toalha para enxugar-se, Jade mirou-se com uma expresso crtica.
Fazia tambm muito tempo que no se observava com ateno. A vida agitada de Portland no lhe dava muitas chances de cuidar de si mesma.
O espelho devolvia-lhe a imagem de uma mulher bela e atraente. As pernas esguias e bem torneadas, a cintura fina, os seios firmes, a linha arredondada dos quadris... Sim, ela continuava bonita, como sempre. S que mais madura e experiente.
	Mais amargurada, tambm  pensou, em voz alta, aproximando-se para examinar o rosto.
Os lbios finos, o nariz levemente arrebitado, a linha marcante do queixo, compunham uma face de traos perfeitos alm de delicados. Mas os olhos verdes eram a caracterstica mais impressionante. Pareciam duas esmeraldas, destacando-se contra a alvura da pele. Porm, se observados com ateno, no conseguiriam esconder um trao de mgoa que parecia ali instalada, para sempre...
Jade suspirou. Sabia muito bem o motivo pelos qual seus olhos haviam adquirido aquela expresso. Um motivo que poderia ser resumido em duas palavras: Louis Mathieson.
Com um leve meneio de cabea, ela afastou o pensamento e as recordaes que tentavam assalt-la. Pegando a toalha, comeou a se enxugar e no mais olhou para o espelho. Por fim envolveu os cabelos ruivos na toalha e foi para o quarto.
Abrindo o armrio que ocupava uma parede inteira, encontrou um roupo atoalhado e vestiu-o.
Mas, para sua surpresa, no havia muitas outras opes... Ou melhor, no havia o que vestir. Algum tinha retirado a maioria das roupas. Talvez Hank houvesse decidido mand-las para uma tinturaria, como fazia de tempos em tempos.
	Mas justo agora?  Jade protestou, baixinho, mordendo o lbio inferior em sinal de nervosismo.
Remexendo as gavetas, encontrou alguns pares de meias e um velho suter que ela tricotara durante o curso secundrio. Fora sua primeira e ltima tentativa de ser uma garota prendada, como se dizia na poca. Pois o suter ficara simplesmente um horror, com uma das mangas mais larga e mais curta do que a outra, o decote em V totalmente torto. E como se isso no bastasse, a frente era mais curta do que as costas, incrivelmente longas, tanto que pareciam um vestido, no um suter. Jade nem sabia, ao certo, porque resolvera guard-lo. Quando Hank lhe sugerira que o desse de presente a uma pessoa mais pobre, Jade discordara:  Acha que vou dar isso para algum vestir?
	Mas o velho Antony est precisando de agasalhos  Hank explicara, referindo-se ao jardineiro.  Vou lhe comprar roupas novas quando for a Portland, na semana que vem. Emprestei-lhe alguns agasalhos, mas ficaram apertados, pois sou muito magro e Antony  mais encorpado.
	Voc acha que esse horror serviria para Antony?  ela perguntara.
	Pelo cumprimento e largura, sim.
	Ento, farei outro, que tenha mangas do mesmo tamanho.
Mas no fora preciso, pois a esposa do jardineiro conseguira reformar os agasalhos, de modo que servissem ao velho Antony.
Depois, Hank fora a Portland e, como fazia todos os anos, trouxera roupas de inverno para todos.
Jade sorriu, ante aquela lembrana. Retirando o suter do saco plstico onde estava guardado, segurou-o pelos ombros disformes e franziu a testa:
	Nunca pensei que chegasse o dia em que teria de us-lo, pequeno exemplo de horror. Mas, se for preciso...  E atirou-o sobre a cama.  Bem, esperemos que no seja.
Continuando a remexer nas gavetas, Jade encontrou peas ntimas e um velho jeans.
No havia mais roupas, ela constatou, desolada. O armrio estava praticamente vazio. Na parte de cima havia livros, cadernos e outros objetos de seus tempos de colgio.
	Em que boa hora o querido Hank decidiu mandar lavar minhas roupas.  Ela suspirou, apertando o cinto do roupo e lanando um olhar desanimado na direo do suter. Depois, voltou-se para a cadeira. Ali estavam as roupas que tinha usado, naquele dia. E Jade no tinha a menor inteno de vesti-las, depois daquele banho maravilhoso. Alm do mais elas estavam midas. E certamente lhe causariam um bom resfriado.
O que fazer? Jade perguntou-se, soltando os cabelos e friccionando-os com a toalha, para que secassem mais rpido. Depois penteou-os, deixando-os soltos.
Uma boa alternativa seria ir at o quarto de Hank e pegar uma camisa ou moletom emprestado. Tinha certeza de que Hank no se incomodaria com isso.
At a, no havia problemas... Exceto por um detalhe: a sute de Hank ficava exatamente ao lado da sute de hspedes, que estaria ocupada por Louis.
Jade suspirou. De bom grado havia desistido da ideia de fazer um jantar, s para no correr o risco de encontrar-se com Louis. E agora iria exatamente na sute ao lado da dele...?
Jade tomou flego e saiu do quarto. Quem sabe a sorte no a ajudaria? Alm do mais, a operao no levaria muito tempo...
Descendo as escadas rapidamente, mas sem fazer barulho, ela chegou ao andar trreo. Louis no estava na sala. Na lareira, as brasas das ltimas achas desenhavam formas rubras, que se mesclavam s cinzas, num espetculo de luz e cores que mudavam de tom a cada segundo.
Ao que tudo indicava, Louis j havia se recolhido, Jade pensava, a caminho do corredor que saa  esquerda da sala. Pela direita, chegava-se  copa, cozinha e quintal.
Andando a passos largos, Jade passou pela biblioteca e pelo escritrio. A prxima porta era a da sute de Hank. E, a seguinte, da sute de hspedes.
Com um gesto cauteloso, mas tenso, Jade experimentou a maaneta. Ficou ainda mais nervosa ao ver, por debaixo da porta da sute de hspedes, um facho de luz amarelada. Isso significava que Louis estava acordado... E que ela precisava agir ainda mais rpido.
Respirando fundo, Jade entrou no quarto de Hank. Tateando a parede, acendeu a luz e correu em direo ao armrio. Abriu-o de par em par e correu os olhos pelas roupas cuidadosamente enfileiradas.
	Camisas e ternos... - disse, baixinho.  No  bem isso que preciso.
Abriu outro mdulo do armrio e ento encontrou o que desejava: sobre uma prateleira, vrias camisas de malha, de mangas compridas, estavam empilhadas. Havia tambm conjuntos de moletons, ideais para aquela noite. Mas Jade sabia que ficariam grandes demais para ela, pois Hank era alto e magro.
Sem escolher muito, ela pegou uma camisa amarela, que sem dvida lhe chegaria quase at os joelhos. Mas serviria, Jade decidiu, tornando a fechar o armrio.
Voltou-se para sair e s ento notou que no estava sozinha.
Apoiado ao batente da porta, Louis a observava com um misto de curiosidade e divertimento.
	O que meu pobre pai diria, se soubesse que sua adorvel afilhada transformou-se numa bisbilhoteira?
Corando violentamente, Jade justificou-se:
	No se trata disso.
Ele ergueu as sobrancelhas:
	No? Mas eu acabo de flagr-la!  Imitando os detetives de um famoso seriado de televiso, disse com voz montona:  Voc tem todo o direito de ficar calada, srta. Jade Adams. Qualquer coisa que disser poder ser usada contra voc. Se no tiver um advogado, o juiz designar a um jurista do Estado, para assisti-la...
	Ora, pare com isso  Jade ordenou, aborrecida.  Acredite ou no, vim at aqui para pegar isto emprestado.  E mostrou-lhe a camiseta amarela.
	Que eu saiba, voc sempre detestou essa cor  Louis comentou, com ar maroto.
	No estou em condies de escolher  ela retrucou, num tom rspido. Por que Louis tinha de se referir ao passado? Pensou, com um nervosismo crescente.  Alm do mais...
	Voc estava com pressa, no ?  ele completou.
	Sim.
	Por qu? Tinha medo que eu descobrisse?
Jade o encarou com ar de desafio.
	Escute, Louis Mathieson, voc pretende continuar com esse interrogatrio por muito tempo?
Louis sorriu. Parecia estar se divertindo muito com a situao.
	Por que pergunta, Jade Adams?
	Porque estou exausta, com sono e no vejo a hora de voltar para a tranquilidade de minha sute  ela respondeu, de um s flego.  E ento? Vai me deixar ir, ou quer chamar a polcia?  Exibindo a camiseta, acrescentou:  Veja... Aqui est a prova do crime.
Jade pensou que Louis fosse rir, mas agora ele estava muito srio, fitando-a no exatamente nos olhos e sim um pouco mais abaixo...
Olhando para si, Jade descobriu o que estava acontecendo: o roupo, entreaberto, deixava-lhe o colo e parte dos seios  mostra.
Com as faces afogueadas de vergonha, ela deixou cair a camiseta e fechou rapidamente o decote, amarrando o cinto do roupo com mais fora.
Nesse nterim, Louis pegou a camiseta e examinou-a com exagerada ateno.
	Hum... No creio que esta pea lhe cair bem.
	No pedi sua opinio  Jade retrucou,  beira do descontrole.  Agora, d-me isso de volta.
Louis meneou a cabea, num gesto de negao.
	Que brincadeira estpida!  Jade exclamou, furiosa.  Se pensa que estou achando graa, enganou-se redondamente.
	O que penso  que tenho algo mais adequado para voc. Venha comigo.
	Esquea  Jade resmungou.  Vou dormir de roupo, mesmo.  E dirigiu-se  porta.
Louis deu-lhe passagem, mas segurou-a pelo brao:
	Escute, eu estou apenas querendo ser gentil.
	Pelo que pude perceber, voc estava era se divertindo  minha custa  Jade retrucou, com a voz trmula de indignao.
 Agora, quer ter a bondade de me soltar, por favor?  Sem esperar pela resposta, ela desvencilhou-se com um gesto brusco e afastou-se correndo pelo corredor.
Subiu as escadas de dois em dois degraus e chegou ao quarto. Atirou-se na cama, com o corao aos saltos, e levou um longo momento para se acalmar.
A cena com Louis tinha sido simplesmente desastrosa. E tudo por sua culpa.
Uma batida leve, na porta, sobressaltou-a. No precisava perguntar quem seria, pois estava certa de que s havia uma pessoa no chal, alm dela...
	Louis!  disse, elevando a voz.  Por favor, deixe-me em paz.
	Eu nem pensaria em perturb-la...  A voz de Louis soava grave e pausada, num tom muito srio.  H algo para voc, aqui no corredor. Boa noite, estou voltando para a sute de hspedes.
Jade suspirou profundamente, ajeitando-se sob as cobertas macias. O suter disforme, que ela havia tricotado h tanto tempo, continuava ali, sobre a colcha. Mas Jade no se animava a vesti-lo. Alm do mais, achava desagradvel o contato direto da l com a pele.
Fechando os olhos, Jade procurou dormir. Mas apesar de exausta fisicamente, estava muito irrequieta. O inesperado reencontro com Louis fora demais para ela... E a cena lamentvel ocorrida h pouco, no andar trreo, tinha agravado ainda mais a situao.
Havia tambm um outro fator que a estava impedindo de dormir... Algo que ela no queria considerar, mas que a perturbava consideravelmente: a curiosidade. O que Louis teria lhe deixado, do lado de fora da porta?
Era fcil adivinhar. Certamente tratava-se da camiseta que ele lhe tomara minutos antes, numa brincadeira idiota e sem sentido.
Naturalmente, Jade no tinha a menor inteno de confirmar essa suposio... A menos que a curiosidade se tornasse mais forte. E era exatamente isso que estava acontecendo.
	Droga  ela resmungou, jogando as cobertas para trs e levantando-se de um salto. Era melhor pegar, de uma vez por todas, a tal camiseta de Hank. Caso contrrio, ficaria acordada a noite inteira.
Irritada, Jade abriu a porta. E deparou com uma surpresa: no era a camiseta amarela que estava ali... Mas sim uma camisa de flanela branca, um suter de losangos azuis e brancos, uma cala de moletom azul-aflanelado e meias da mesma cor.
 Louis...  ela disse, baixinho, erguendo as peas nos braos e fechando a porta.  Como  que ele consegue ser to irritante num momento e to encantador no outro?
Depositando as roupas sobre a cama, Jade abriu-as para examin-las melhor. Era impossvel controlar o impulso de lev-las ao rosto, para sentir-lhes a maciez e o perfume.
As peas recendiam levemente a pinho. J totalmente esquecida da raiva que a habitava momentos atrs, Jade sentia o corao se amansando, deixando-a respirar mais livremente.
Sempre fora assim: ela possua um carter explosivo, mas no rancoroso. Qualquer sentimento, por mais negativo que fosse, era esquecido com facilidade, to logo passasse o momento de raiva.
Jade contemplou as roupas abertas sobre a colcha. Talvez devesse devolv-las, ou simplesmente recusar-se a vesti-las. Mas a tentao de dormir, usando aquelas peas confortveis, falou mais alto. E Jade, deixando o orgulho e a razo de lado, decidiu aceitar a gentileza que Louis lhe fizera.
Estava desabotoando a camisa de flanela, quando reparou num pequeno volume, no bolso. Abrindo-o, retirou um carto de visitas, com o nome Louis Mathieson escrito em itlico, com letras prateadas.
A princpio, Jade pensou que ele o tivesse esquecido no bolso. Mas descobriu que no, graas ao recado anotado no verso, na caligrafia elegante e inclinada que ela bem conhecia:
Jade Adams,
Voc detestava amarelo e gostava de azul. Tinha tambm uma predileo especial pelo branco. Se isso no mudou...
A frase parava a. O bilhete terminava com a rubrica de Louis Mathieson.
 A gente no muda...  Jade murmurou, emocionada.  Ao menos no essencialmente, embora faamos questo de provar aos outros, e sobretudo a ns mesmos, que aprendemos certas lies.
Comovida, Jade vestiu as roupas perfumadas que de fato ficaram largas. Mas eram confortveis e a aqueciam deliciosamente.
Deitando-se de novo, Jade cobriu-se e fechou os olhos. Deveria ligar para algum restaurante ou pizzaria e encomendar um jantar, j que no tinha comido nada, desde a hora do almoo.
Como que para faz-la desistir da ideia, o vento aumentou de intensidade, fustigando a vidraa da janela. E Jade concluiu que ningum seria maluco de sair naquele temporal, para entregar uma pizza... Nem que a gorjeta fosse muito boa.
Com um profundo suspiro, ela se acomodou melhor e decidiu dormir. Estava mais cansada do que faminta. E bem poderia esperar pela manh seguinte, para comer.
Alcanando o interruptor ao lado da cama, Jade apagou a luz.
A imagem de Louis estampou-se em sua mente, como alis ocorria com frequncia, h um ano. Bastava-lhe fechar os olhos e l vinha Louis Mathieson, instalando-se em sua memria com uma nitidez cruel, obrigando-a a relembrar o que deveria ser esquecido.
Apenas, naquela noite, havia uma diferena: Louis estava bem ali, no andar de baixo. E isso agravava a situao.
	No quero pensar em voc...  ela disse, baixinho.  No quero pensar em nada, nem mesmo no motivo que o trouxe para c, depois de tanto tempo.
O passado queria entrar, mas Jade trancava a porta de acesso. J sofrera demais. Era hora de pensar em si mesma e no seu bem-estar.
Lutando contra as recordaes, respirando de maneira compassada e lenta, numa tentativa de relaxar, Jade por fim adormeceu, mergulhando num sono profundo e sem imagens.
Acordou com o uivo do vento, mesclado ao som dos flocos de neve que batiam na janela.
"J deve estar amanhecendo", pensou, sonolenta, virando-se de lado. O relgio de cabeceira, cujo mostrador luminoso indicava duas horas da manh, provou-lhe que estava enganada.
Com um suspiro, Jade tentou dormir novamente... Em vo. Seu corpo cobrava o alimento negado por tantas horas. Estava terrivelmente faminta e isso a impedia de conciliar o sono.
	No adianta  ela concluiu, sentando-se e acendendo o abajur, ao lado do relgio. Precisava tomar um lanche, ou ao menos um copo de leite.
Mas e se encontrasse Louis?
Afastando essa hiptese, Jade levantou-se. quela hora, ele certamente estaria dormindo.
Por via das dvidas, ela saiu do quarto sem fazer barulho e desceu as escadas devagar, atenta ao menor movimento. Se percebesse qualquer sinal da presena de Louis na sala, ou mesmo na cozinha, voltaria silenciosamente sobre os prprios passos.
A sala estava vazia e, a lareira, apagada. A luminria do canto era agora a nica responsvel pela tnue luminosidade no ambiente.
Jade chegou ao corredor que conduzia  copa e cozinha. Tateando a parede, encontrou o interruptor e acendeu-o. Agora, tudo o que precisava fazer era preparar um lanche rpido e voltar para o quarto.
	Ah, que bom...  ela murmurou, satisfeita, ao encontrar um belo po integral no armrio. Era o seu preferido.
Agora s faltava achar, na geladeira, o recheio do sanduche...
Abrindo-a, Jade teve de escolher entre um pat de azeitonas, queijo fresco, queijo foundie, ricota e pasta de amendoim.
Optou pelo queijo fresco e levou-o para a mesa, depositando-o ao lado do po integral. Em seguida pegou a jarra de leite e aqueceu-a por alguns minutos, no fogo. Serviu-se de um copo e sentou-se  mesa. Cortou duas fatias finas, de queijo, e colocou-as num prato, ao lado de um pedao de po integral. O lanche estava pronto.
	Eu tambm estou com fome...  disse uma voz infantil.
Sobressaltada, Jade virou-se na direo da porta e deparou com um garotinho de cerca de seis anos, que a fitava com curiosidade. Os cabelos, escuros e cacheados, estavam em desalinho. Uma expresso sonolenta estampava-se no rostinho angelical e corado.
Mas de onde teria surgido aquela criana? Jade se perguntou, interrompendo o gesto de levar o copo de leite aos lbios.

CAPITULO III

	Corno  o seu nome?  Jade indagou, o garoto respondeu.
 Matthew  E voc, como se chama?
	Jade.  Ela observava a criana com ateno. Era um belo menino e estava simplesmente encantador com seu pijama de flanela verde-claro, com desenhos de gatinhos estampados.
Os olhos, claros e penetrantes, eram azuis-acinzentados, com longos clios escuros a emoldur-los.
	Voc vai comer tudo isso?  Com um expresso faminta, Matthew apontou o prato que ela ainda no havia tocado.
Jade sorriu:
	Bem, se voc quiser me acompanhar, ser um prazer.
Gosta de po integral com queijo fresco?
	Sim  o menino respondeu, retribuindo o sorriso.
	Ento, como este, enquanto preparo outro prato para mim.  Jade encheu um copo com leite e colocou-o diante do garoto.  Isto tambm  seu.
	Obrigado  Matthew agradeceu, num tom polido. Sorveu um gole, que deixou-lhe uma marca esbranquiada ao redor dos lbios.
	Que tal limpar o bigode!  Jade sugeriu, dando-lhe um guardanapo de papel.
O menino tornou a agradecer. Limpou a boca e comeou a comer com avidez.
"De onde teria vindo o pequeno Matthew?" Jade pensava, enquanto preparava um segundo lanche. "De quem seria filho... De Louis?", perguntou-se, com um sobressalto.
No... Jade decidiu, no instante seguinte. Se Louis tivesse um filho daquele tamanho, ela saberia. Afinal, fazia um ano que haviam rompido o romance.
O mais provvel era que Matthew fosse filho da atual namorada de Louis... E talvez essa mulher estivesse justamente dormindo nos braos dele, naquele momento.
Dor e confuso turvaram a mente de Jade, por alguns instantes. De repente, lembrou-se de que Louis tinha dito, naquela noite, que queria conversar... Que havia algo que ela precisava saber.
Jade fechou os olhos, com o corao oprimido pela angstia. Ser que Louis tinha tentado lhe contar que no viera sozinho, mas sim com Matthew e com sua nova namorada?
	Puxa, estava muito gostoso.  o menino interrompeu-lhe os pensamentos.  Posso repetir?
	Claro que sim, querido.  Jade ofereceu-lhe o novo prato que havia preparado para si.  Quer mais um copo de leite?
O menino respondeu com um gesto afirmativo de cabea, enquanto dava uma mordida no po integral.
Ela o serviu e comentou:  Espero no t-lo acordado, quando passava pelo corredor. Tomei muito cuidado para no fazer barulho e...
	Eu acordei sozinho  o menino apartou, antes de abocanhar um bom naco de queijo fresco.  E com uma fome!
	Isso eu estou percebendo.  Jade sorriu.  Voc tem um apetite de leo, mocinho.
Por vrios minutos, ambos ficaram em silncio, concentrados em saborear o lanche. Jade j estava quase terminando de comer, quando Matthew sentenciou, orgulhoso:
	Gosto de comer de tudo um pouco. No sou como aqueles meninos chatos, que do trabalho na hora das refeies.
Achando graa na afirmao do garoto, Jade comentou:
	Aposto que sua me deve ficar muito feliz com isso. 
Imediatamente, Matthew mudou de expresso. O sorriso
desvaneceu-se de seus lbios e as lgrimas inundaram-lhe os olhos azuis-cinzentos. Tudo aconteceu muito rpido, para total espanto de Jade.
	A me de Matthew morreu  disse Louis, entrando na cozinha. As palavras, pronunciadas num tom baixo, causaram em Jade o efeito de um grito.
Ela quis dizer algo, mas no conseguiu. Apenas olhou para o menino, como num mudo pedido de desculpas por ter tocado naquele assunto doloroso.
Matthew afastou o prato, que ainda continha um pedao de queijo. Levantando-se, correu ao encontro de Louis, que abaixou-se para abra-lo.
Jade assistiu, comovida, quela cena de amor entre homem e garoto. Louis amparava Matthew, como a proteg-lo do sofrimento, consolando-o com palavras doces.
	Vejo que j se conheceram  Louis comentou, minutos depois, tomando Matthew no colo e erguendo-se.
	Sim  ela respondeu, forando um sorriso. De sbito, um pensamento doloroso acorreu-lhe  mente: que se no tivesse perdido o beb... Se no houvesse perdido o filho de Louis, hoje ambos seriam pais de uma criana de trs meses...
Ante aquela lembrana terrvel, Jade estremeceu. Felizmente Louis nada percebeu, pois estava ocupado em consolar o menino, que repousava a cabea em seu ombro. Num tom suave, ele tentava fazer Matthew dormir, embalando-o levemente.
Jade levantou-se, recolheu os pratos e copos. Levou-os para a pia e comeou a lav-los. O choro do pequeno Matthew havia se transformado num leve murmrio, mas ainda assim era de cortar o corao.
Jade sabia muito bem o quanto era duro no ter uma me, pois perdera a sua ao nascer. De repente, sentiu uma forte necessidade de consolar Matthew, de ao menos tentar minorar-lhe o sofrimento.
Enxugando as mos num pano de prato, aproximou-se do menino, que continuava no colo de Louis.
	Ei, Matthew...  chamou-o, num tom carinhoso  sinto muito pelo que eu disse. No era minha inteno deix-lo triste.
O menino no respondeu. Mas Louis afirmou:
	Matthew sabe disso... No  mesmo?  perguntou ao garoto, que respondeu com um gesto afirmativo de cabea, embora no se voltasse para Jade. Louis sorriu, mas em seus olhos azuis havia uma nuvem de tristeza.  Ah, est vendo s? Ele acreditou em voc.
	Que bom  Jade assentiu, acariciando os cabelos do menino.
	Bem, acho que Matthew precisa voltar a dormir  disse Louis, apertando o menino contra si, num gesto de proteo carinho.  Vou lev-lo para a cama.  E afastou-se pelo corredor, em direo  sute de hspedes.
Jade deixou-se cair sobre uma cadeira. Qual seria a ligao de Louis com o pequeno Matthew?, perguntou-se, com um suspiro. Que ele amava o garoto, estava bvio. E que a relao de ambos era muito intensa, tambm.
Mas por que Louis havia trazido Matthew para Paradise Lake?
Bem, fosse qual fosse a razo, isso no era de sua conta, Jade decidiu, comeando a enxugar a loua.
	No sabia que ainda estava por aqui. Achei que voc tinha esquecido a luz acesa e vim apag-la...
Jade voltou-se e deparou com Louis, que naquele momento pareceu-lhe mais belo do que nunca. O pijama cor de marfim, que tnais parecia um elegante conjunto de moletom, contrastava com o rosto moreno, onde os olhos azuis brilhavam como jias preciosas. Os cabelos negros, levemente despenteados, davam-lhe um encanto especial.
Mas por que estava pensando assim?, Jade perguntou-se, irritada consigo. Claro que Louis era um homem atraente... Sempre fora. Isso no era novidade, afinal.
	J estou terminando  ela anunciou, apenas para dizer alguma coisa, enquanto guardava os talheres j enxutos na gaveta e, os pratos, numa prateleira. Em seguida pendurou o pano de pratos num gancho e despediu-se:  Boa noite, Louis.
	Boa noite  ele respondeu e acrescentou rapidamente:  Tentei lhe falar sobre Matthew.
	Eu sei  ela assentiu, com um meio sorriso.  Desculpe se no lhe dei ouvidos.  Quis sair, mas Louis estava justamente na porta, impedindo-lhe a passagem. E parecia querer dizer algo mais.
	Talvez voc gostasse de saber que Matthew  filho de Philip e Nina Carmichael.
	Oh, Deus!  Jade exclamou, com voz sufocada.  Eu me esqueci completamente de que Philip e Nina tinham um filhinho.
	Voc se esqueceu de muitas coisas  Louis retrucou, com um misto de rancor e raiva.
Jade entendia claramente o porqu daquela acusao. Louis estava lhe cobrando o apoio que ela no lhe dera, na poca da tragdia. Se ao menos soubesse que ela estava impossibilitada de v-lo!, Jade pensou, com um sentimento de angstia. E fitou-o no fundo dos olhos, antes de afirmar:
	Eu jamais me esqueci que Philip e Nina eram seus melhores amigos... Talvez seja um pouco tarde para dar-lhe minhas condolncias, Louis. Mas, mesmo assim, quero dizer que sinto muito pelo que aconteceu.
Louis sustentou-lhe o olhar durante um longo momento, como se buscasse algo que Jade no sabia ao certo o que era. A tenso entre ambos parecia quase palpvel, no ar. Era como se os desentendimentos do passado retornassem de repente, com redobrada intensidade.
	Por que voc no foi ao funeral?
A pergunta de Louis soou spera, denunciando a mgoa que ainda o habitava.
Ela suspirou profundamente, triste por saber, de antemo, que no poderia responder a pergunta... Ao menos no com total sinceridade.
	Por qu?  Louis insistiu, rspido.
	Voc tinha acabado de romper nosso noivado, lembra-se?  ela retrucou, com voz trmula, cruzando os braos como que para se defender, no d Louis Mathieson, mas das imagens daquela poca terrvel. Afinal, s soubera do acidente alguns dias depois do ocorrido. Isso porque havia passado mal no avio para Los Angeles. Uma ambulncia a levara do aeroporto ao hospital, onde ela passara trs dias lutando para no perder o beb... E mais trs recuperando-se do aborto, que fora inevitvel.
	Eu me lembro muito bem  Louis sentenciou, passando a mo pelos cabelos, num gesto de tristeza e cansao.  Mas achei que os desentendimentos deveriam ser deixados de lado, num momento como aquele. Alm do mais...  Interrompendo-se abruptamente, ele meneou a cabea, como se desistisse do que ia dizer. E mudou de assunto:  Bem, obrigado pelo sanduche que voc preparou para Matthew. Ns estivemos viajando, nos ltimos dias. Ontem, sobretudo, no nos alimentamos muito bem. Matthew adormeceu logo que chegamos aqui. Achei que ele precisava mais de sono, do que de um bom jantar... E suponho que tenha errado redondamente.
Jade no sabia se devia agradecer Louis por ter desviado o rumo da conversa, ou se no seria melhor abrir o corao de uma vez por todas e contar o verdadeiro motivo pelo qual ela no pudera voltar a Nova Orleans, na poca do acidente. Mas, pensando bem, de que adiantaria remexer em velhas feridas? Os caminhos de ambos j haviam se separado. Qualquer meno ao passado s causaria mais sofrimento... Nada alm disso. Assim, Jade decidiu que o melhor era continuar guardando seu segredo.
	Jade...?  Louis chamou-a, num tom suave.
	Sim?  ela indagou, com voz distante.
	Voc parecia to longe daqui...
Louis agora a fitava com tanta intensidade, que Jade sentiu-se enrubescer. As comportas do passado se abriram sem que ela pudesse impedir... E Jade lembrou-se de quando Louis a beijara pela primeira vez, roubando para sempre seu corao. Recordava-se claramente de que houvera uma certa tenso no ar, uma inquietao incontrolvel mesclada a um sentimento de pura alegria... Tudo isso antes que os lbios de Louis cobrissem os seus, causando-lhe uma emoo indescritvel.
"Ele me olhava exatamente desse jeito, naquela noite", Jade pensou, estremecendo.
Louis no estava se sentindo muito diferente... No momento em que fitara Jade no fundo dos olhos, sabia muito bem que ela o enfeitiaria novamente. E os sentimentos que ele tanto vinha lutando para sufocar, h um ano, despertariam com redobrada intensidade. Ele nada poderia fazer seno admitir, amargamente, que jamais esquecera aquela mulher.
E como ceder ao impulso irresistvel de tom-la nos braos, para um longo beijo?, Louis se perguntou, com o corao aos saltos.
Pensando bem, talvez devesse ceder um pouquinho, para que aquela presso sobre o peito amainasse e o deixasse respirar.
Sim... Ceder um pouquinho e beijar Jade Adams, apenas uma vez. Que mal haveria nisso? Seria somente um beijo...
Tomando flego, Louis sufocou o desejo imperioso, que ameaava domin-lo. Conhecia-se o suficiente para saber que no ficaria satisfeito com algumas migalhas de amor. Um beijo pediria outro, mais intenso... Que levaria a outro, mais ousado... E ento ele estaria irremediavelmente perdido.
Era melhor cortar aquela onda de desejo, antes que fosse tarde demais. Foi isso que Louis decidiu, em pensamento, antes de anunciar:
	Bem, acho que vou me recolher, Jade. E voc deveria fazer o mesmo.
	Boa ideia  ela aquiesceu.  Afinal, quero levantar cedo.
	Tem urgncia de voltar a Portland, no ?  ele indagou, num tom subitamente provocativo. Antes que Jade respondesse, acrescentou:  Seu namorado deve estar ansioso para revela. Boa noite.  E afastou-se a passos largos.
	Droga  Jade resmungou, aborrecida. Aquela histria boba, sobre um namorado que nem sequer existia, j a estava deixando impaciente. Gostaria de esclarecer o mal-entendido...
Caso Louis lhe desse alguma chance de faz-lo.
Apagando a luz da cozinha, ela resolveu voltar  sute e tentar dormir.
Aquele novo e inesperado contato com Louis a havia deixado ainda mais inquieta do que antes. No momento em que Louis a tinha fitado profundamente, Jade julgara que ele fosse beij-la. E com um sentimento de assombro descobrira que nada faria para impedi-lo!
	Tola  ela repreendeu-se, em voz alta, enquanto se deitava.  Voc  uma grande tola, Jade Adams. Ainda no aprendeu a dura lio que Louis Mathieson lhe deu, no passado? Ser que precisa de um pouco mais de sofrimento, para enfim compreender?
Acomodando-se sob as cobertas, Jade procurou uma posio mais confortvel. Em seguida apagou a luz do abajur e fechou os olhos.
	Preciso dormir  disse, baixinho, respirando lentamente, como nos exerccios de ioga.  Preciso descansar...
Dessa vez, o sono no tardou a arrebat-la. As emoes do dia, bem como da madrugada, tinham sido muitas. E Jade adormeceu em poucos instantes.
	Ei... Voc j acordou? Ei... Ainda est dormindo?
O som daquela voz desconhecida fez com que Jade aos poucos submergisse do mundo dos sonhos. Abrindo os olhos, ela observou o garoto que, sentado  beira da cama, chamava-a com insistncia. Jade levou alguns instantes para reconhec-lo e despertar de uma vez.
	Oh,  voc, Matthew?  constatou, recostando-se na cabeceira da cama.  Bom dia.
	Bom dia  o menino respondeu, com um sorriso angelical.
	Como se sente, nesta manh?  ela perguntou.
	Bem.  Matthew olhou ao redor, com uma expresso avaliadora. Por fim comentou:  Este quarto  bonito. E parece muito antigo.
	Acertou em ambas as afirmaes, mocinho. Jade sorriu, afastando uma mecha ruiva que caa-lhe na testa.  Voc j tomou caf?
	Ainda no. Louis est fazendo torradas, ovos mexidos, suco de laranja e mais uma poro de coisas gostosas.
	No diga!  Jade reagiu, surpresa, lembrando-se de que Louis sempre fora um verdadeiro fracasso na cozinha. Em todos os outros campos, ele se destacava de maneira brilhante. Mas a arte culinria sempre lhe parecera um verdadeiro horror. Nas poucas vezes em que tentara cozinhar, o resultado fora terrvel. E Louis desistira.
	Sabe que nevou a noite inteira?  Matthew anunciou, interrompendo-lhe as recordaes.
	Tem certeza?  Jade indagou, preocupada.
O menino respondeu com um gesto afirmativo de cabea, antes de dizer:
	Louis falou que l fora h neve suficiente para fazermos um milho de bonecos.
Jade meneou a cabea, com uma expresso desolada. Havia acalentando a esperana de que o temporal passasse durante a noite. E que o dia amanhecesse com boas perspectivas de melhora. Assim, o pessoal da prefeitura viria logo cedo, desimpedir as estradas. E ela poderia regressar a Portland.
	Deixe-me levantar, querido.
O garoto ergueu-se e Jade afastou as cobertas. Saltou da cama e foi at a janela, que dava para os fundos da propriedade.
Matthew aproximou-se e Jade enlaou-o pelos ombros.
To longe quanto os olhos podiam alcanar, o manto branco de neve estendia-se sobre a paisagem. A fileira de cedros, que servia de cerca divisria com a propriedade vizinha, parecia uma daquelas fotos tradicionais de cartes de Natal. Nas copas imensas, os galhos comeavam a ceder ao peso da neve. Com um pouco de imaginao e criatividade, seria possvel dizer que eles pareciam sentinelas de contos de fadas, em seu uniforme branco, guardando um mundo encantado.
Os flocos de neve continuavam caindo, embora de maneira bem menos violenta do que na vspera. O vento no soprava to forte, nem fustigava as vidraas.
A paisagem de fato era linda, mas Jade no estava devidamente disposta a apreci-la.
	Droga  disse, baixinho.
Matthew ergueu o rosto para ela:
	O que voc falou?
	Algo que no se deve falar.
	Foi um palavro?
	Nem tanto.
	Ento, conte.
	Eu disse droga.
	Por qu?
Ela sorriu:
	Voc pergunta demais, mocinho.
	S queria saber, ora.
	Certo  Jade cedeu.  Estou aborrecida porque no queria que houvesse nevado.
Matthew arregalou os olhos azuis-cinzentos, numa expresso de espanto:
	Voc no gosta de neve?
	Adoro.
	Ento, do que est reclamando?
Jade acariciou-lhe os cabelos:
	Vocs, crianas, tm uma incrvel capacidade de colocar os adultos num beco sem sada. Mas, naturalmente, a culpa  dos prprios adultos, que so incoerentes e falam demais.
	No entendi nada.
	Est bem. Vou explicar de um jeito melhor: eu adoro neve, entende? Mas gostaria que no houvesse nevado  noite, para que eu pudesse voltar para casa.
	Voc precisa ir mesmo?  Matthew indagou, com uma expresso sria.
	Sim, querido.
	Se no voltar, levar uma bronca de sua me ou de seu pai?
	No.  Jade tornou a sorrir.  Mas talvez minha chefe fique preocupada.
	Ela  muito m?
	Claro que no!  Jade exclamou, rindo.  Ao contrrio:  uma de minhas melhores amigas.
	Ora, ento ela vai entender que a culpa no foi sua. E j que voc no pode mesmo ir, que tal brincar comigo e Louis? Ns vamos fazer um boneco de neve muito grande.
	 uma linda ideia, querido, mas eu realmente prefiro...
	Vamos fazer anjos, tambm  o menino a interrompeu, entusiasmado.  Voc sabe como , no?
Antes que Jade respondesse, a voz de Louis soou no quarto:
	Matthew, o que est fazendo aqui?
Jade voltou-se na direo da porta, que o menino havia deixado aberta, ao entrar. Ali estava Louis, trazendo-lhe uma nova avalanche de recordaes.
Por quantas vezes no o vira assim, pouco depois de acordar, com os cabelos ainda midos do banho e o rosto recm-bar-beado? O que sempre a comovia, nessas ocasies, era a expresso ainda sonolenta, no rosto de traos perfeitos. Uma expresso que emprestava, aos olhos azuis, um toque de beleza infantil. E agora Louis vinha despertar mais essa lembrana.
	Eu estava apenas explorando o espao, como voc mesmo diz  Matthew justificou-se, tomando a mo de Jade, trazendo-a de volta ao momento presente.
	Explorando o espao  Louis repetiu, num tom srio, mas em seus olhos havia uma ponta de divertimento, que no passou despercebida a Jade.  Ento era isso, hein, sr. Matthew?
	  o menino retrucou, segurando a mo de Jade com mais fora, como se lhe pedisse cumplicidade.  Voc falou que eu podia, lembra-se, Louis?
	De fato, eu lhe disse para ir aonde quisesse... Mas estava me referindo apenas ao andar trreo, mocinho.
	Eu sei. Mas quando terminei de olhar tudo l embaixo, resolvi vir aqui em cima...  Olhando de relance para Jade, acrescentou:  Queria ver se ela j tinha acordado. S isso.
	Acontece que no devemos entrar no quarto das pessoas, sem sermos convidados  Louis sentenciou.  Espero ao menos que voc no a tenha despertado.
	Oh, no  Jade apressou-se a intervir.  De jeito nenhum!  afirmou, com veemncia, sentindo o rubor subir-lhe s faces. Era sempre assim, quando mentia.
	Ainda bem  Louis comentou, desviando os olhos dos de Jade, j arrependido por ter vindo at ali. V-la usando suas roupas, de madrugada, j fora uma prova difcil, que o fizera lembrar-se das vezes em que Jade vestia suas camisas ou moletons. E como ficava encantadora, naquelas roupas largas!
Agora, porm, ele estava a ponto de perder o controle. Acordar com Jade, beijar-lhe o rosto ainda marcado pelo sono, era uma de suas mais caras lembranas, que tanto o havia feito sofrer, no ltimo ano. Mas t-la to perto e no poder abra-la era um tormento ainda maior.
	Venha, Matthew.  Louis chamou o menino. Era melhor sair de perto de Jade, antes que cometesse uma tolice.  H um suco de laranja muito gostoso, mingau de aveia, po quentinho e outras guloseimas esperando por voc, na cozinha. Vamos devolver a nossa amiga Jade um pouco da privacidade que lhe tiramos.
O menino lanou a Jade um olhar de gratido e camaradagem, antes de correr para junto de Louis, que j de sada convidou-a:
	Se quiser vir tomar caf conosco, ser um prazer.
	Obrigada  ela agradeceu, com um sorriso.  Mas comecem antes de mim.
	No demore, Jade  disse Matthew, piscando-lhe um olho.
	Est bem, querido.

CAPITULO IV

Logo que se viu sozinha, Jade pde enfim soltar Io suspiro que vinha contendo, nos ltimos minutos. Era difcil admitir, mas continuava to vulnervel aos encantos de Louis quanto antes.
Naturalmente, havia amadurecido no ltimo ano. Mas isso no significava muita coisa, quando se tratava de Louis e de seu incrvel poder de fascin-la.
Estava to encantada com aquele homem, que sentia-se exatamente como na noite em que ele a presenteara com uma bela aliana de esmeraldas, exatamente quinze dias aps o primeiro e definitivo encontro de ambos.
Louis era, ento, um amante dedicado, carinhoso e experiente. Com infinita pacincia, ajudava-a a vencer os bloqueios, conduzindo-a ao desabrochar de uma sensualidade que ela jamais suspeitara existir. Assim, Louis a iniciava no terreno do amor e da intimidade, transformando-a numa mulher confiante e satisfeita.
Mas de que adiantava recordar o tempo em que fora to feliz?
	Nada  Jade murmurou, caminhando a passos largos at o banheiro. Uma boa ducha a ajudaria a sentir-se melhor.
Minutos depois, usando as roupas com que havia chegado, na tarde anterior, ela desceu para o andar trreo. O conjunto de l marrom caa-lhe com perfeio, dando-lhe um toque de altivez e sobriedade.
Enquanto caminhava pelo corredor, em direo  cozinha, ouviu Louis e Matthew conversando. Tomando flego, Jade decidiu que o melhor a fazer era portar-se com naturalidade, ignorando as fortes emoes que Louis lhe provocava.
O cheiro do caf est tentador  ela comentou, ao entrar.
	Acomode-se  disse Louis.  Vou servi-la num instante.  Pegando uma xcara de porcelana branca, encheu-a de caf e depositou-a em frente a Jade, que acabava de se sentar.  Pronto.
	Obrigada  ela agradeceu, lanando um olhar carinhoso a Matthew, que acabava de tomar sua tigela de cereais com leite. Provando o caf, opinou:  Hum... Est simplesmente divino.
	Louis  uma fera na cozinha  Matthew afirmou, orgulhoso.  Algumas pessoas bobas dizem que homem no precisa saber cozinhar. Mas eu, quando crescer, quero ser igual a ele: um bom...  Interrompendo-se, voltou-se para Louis e perguntou:  Como  mesmo o nome?
	Gourmet  Louis respondeu, com um sorriso.
	Isso!  E Matthew repetiu:  Quero ser um bom gourmet.
Jade, que naquele momento provava uma torrada com gelia, surpreendeu-se mais uma vez:
	Nossa... Est realmente deliciosa.
	Foi Louis quem fez a gelia. Ns vamos deix-la aqui, de presente, para Hank.  E novamente pediu a cumplicidade de Louis:  No ?
	Exato  Louis assentiu, fixando em Jade os profundos olhos azuis.  E ento? Quer dizer que estou aprovado na arte de preparar um bom desjejum?
	E com a nota mxima  ela respondeu, admirada.  Estou gratamente surpresa.
	Posso imaginar o quanto  ele comentou, lisonjeado.  Afinal, eu era um verdadeiro fracasso na cozinha.
	Sim  Jade concordou, divertida.  Que eu me lembre, sua nica especialidade era fazer caf solvel e mesmo assim acabava errando na medida!
Ambos riram. E ento as comportas da memria deixaram vazar mais recordaes.
Jade lembrava-se, agora, das manhs em que tomara caf sozinha, em hotis luxuosos. Salvo raras excees, ela sempre encontrava, ao acordar, um bilhete de Louis sobre o travesseiro. A mensagem quase nunca mudava: ele tinha um compromisso profissional e no queria acord-la... Por isso desejava-lhe um bom-dia... Ligaria mais tarde, quando tivesse um intervalo... E no saberia dizer a que horas estaria de volta. Mas queria fazer-lhe uma sugesto: por que ela no descia para o restaurante, para tomar caf? Assim, quem sabe no faria amizade com alguma pessoa interessante, em vez de ficar o dia todo  sua espera?
Era sempre esse o teor dos bilhetes que Louis deixava, finalizando com veementes palavras de amor.
E Jade, triste com a perspectiva de esperar horas a fio para t-lo de volta, acabava entrando em depresso. Jamais aceitara a sugesto de tomar caf no restaurante do hotel. Para que, se ningum, exceto Louis, lhe despertava qualquer interesse?
Preferia ligar para a copa e pedir que lhe servissem o desjejum no quarto. Acabava devolvendo a bandeja quase intocada e, ligando a tev, tentava esquecer o tempo, lanando olhares ansiosos para o telefone que custava a tocar.
A princpio ela esforara-se para suportar, com pacincia, as longas demoras de Louis. Mas depois acabara cobrando-lhe uma presena mais constante.
Louis defendia-se, alegando que no podia negligenciar seus compromissos profissionais. Tinha sido escalado para um trabalho de trs meses, a fim de fazer uma srie de reportagens sobre pases europeus, para um importante programa cultural. Depois, reassumiria a funo de reprter local, em Nova Or-leans, onde morava h vrios anos. Da j no teria de viajar com tanta frequncia, a menos que fosse novamente escalado pela emissora.
Jade reagia mal, acusando-o de dar mais importncia ao trabalho do que  relao de ambos. Depois arrependia-se e assumia uma postura quase submissa. Voltava a aceitar docilmente as longas demoras de Louis, guardando apenas para si os momentos de angstia e solido que passava. Mas, quando Louis retornava, tudo parecia renascer... E bastavam uns poucos momentos de felicidade, para que ela esquecesse a tristeza e vencesse a depresso.
Louis discordara firmemente de sua deciso de abandonar o penltimo ano da faculdade de Comunicaes, para segui-lo naquela turn pela Europa. Ficara ainda mais aborrecido quando ela anunciara que no mais pretendia estudar, que queria ter todo o tempo do mundo disponvel para acompanh-lo. Inutilmente, ele tentara convenc-la a reconsiderar a deciso. Mas Jade, para quem o amor era a nica prioridade da vida, mantivera-se firme.
Hank tambm tentara faz-la mudar de ideia, mas de nada adiantara.
Meu lugar  ao lado de Louis  Jade afirmara, categrica.
E nada no mundo me convencer do contrrio.
Mas voc no pode abrir mo de sua carreira profissional e de outros setores de sua vida, por isso  Hank retrucara, preocupado.
Mas Jade continuava irredutvel:
	Sou uma mulher  moda antiga. No tenho outra ambio, seno ser feliz...
	E voc acha que conseguir ser feliz assim, girando em torno de Louis como um satlite em volta de um astro?
	Sim, meu querido Hank  Jade respondera, convicta.
Ns vamos nos casar em breve. E ento tudo o que farei ser voltado para Louis, para sua felicidade... Que por consequncia ser a minha.
	Receio que isso no seja uma boa ideia  Hank opinara, com ar de dvida.
	Pois eu acho que  uma tima ideia  Jade retrucara, com veemncia. Mas no fundo guardava um receio, que no ousava confessar a ningum... Era que Louis algum dia se cansasse dela e procurasse outra mulher. Isso... Apenas isso turvava sua perspectiva de felicidade. E ela contava os dias que faltavam para o casamento, marcado para um ms aps o final da turn.	'
O regresso a Nova Orleans fora, para Jade, um novo motivo de felicidade. Agora teria Louis apenas para si, ela pensava, satisfeita e confiante no futuro.
Mas, ao contrrio de sua expectativa, o ritmo de Louis com relao ao trabalho no mudara muito. Ele sempre estava muito ocupado. Mesmo assim, Jade mantinha-se firme em sua deciso de viver em funo do homem que tanto amava.
Como havia abandonado a faculdade, em Portland, j no tinha direito de morar no alojamento destinado aos estudantes. Poderia, naturalmente, alugar um bom apartamento com os rendimentos do fundo de penso deixado por seu pai. Mas no era esse o seu objetivo.
Tudo o que desejava era estar ao lado de Louis, o centro de sua vida, o homem a quem pretendia dedicar-se at o fim, a qualquer custo.
Assim, ela mudara-se para o apartamento de Louis, em Nova Orleans. Passava o dia arrumando-o, preparando pratos que Louis adorava, contando as horas que faltavam para sua chegada. Cuidava tambm dos preparativos para o casamento, marcado para o ms seguinte. E assim mantinha-se ocupada, sonhando com a felicidade que em breve seria completa... Ao menos era isso que Jade pensava, at que o maior medo tornara-se realidade: Louis rompera o compromisso, com um argumento vago, no qual ela no conseguira acreditar. Evitando-lhe os olhos, ele propusera-lhe adiar indefinidamente o casamento, alegando que ambos ainda no estavam preparados para um compromisso to srio.
	Mas por qu?  Jade protestara.  Voc no tem certeza que me ama?
	No se trata disso, querida... Apenas, acho que devemos ter mais tempo para pensar, antes de darmos esse passo definitivo. Uma das armadilhas mais comuns, entre casais,  a perda da individualidade. Temos de ser ns mesmos e no uma projeo do outro...
Enquanto Louis falava, Jade via seu castelo de sonhos desmoronar. E naquela mesma noite, quando Louis fora fazer a cobertura de um show dos Rolling Stones, ela fizera as malas e partira para Los Angeles. A chance de ser feliz estava perdida.
	Ei, Jade...  disse uma vozinha delicada, com insistncia.  Jade, voc no est me ouvindo?
Piscando os olhos, ela voltou ao momento presente. Era Matthew quem a chamava, interrompendo-lhe as recordaes.
	Oh, desculpe, querido  Jade sorriu, embora seus olhos verdes guardassem uma expresso triste.  Eu estava distrada.
	Na verdade, voc parecia estar em outro planeta  Louis comentou.
	Bem, j aterrissei de volta  Jade respondeu, numa tentativa de fazer humor. Terminou de beber o caf e voltou-se para Matthew:  O que ia dizer, meu bem?
	Queria convidar voc para brincar comigo e com Louis, l fora. Vamos construir um boneco de neve, lembra-se?
	Sim, voc j me contou sobre isso.
	E ento?  O menino indagou, com um sorriso de expectativa.  Vai nos ajudar?
	Eu adoraria, mas preciso voltar para Portland, nesta manh. Sinto muito, Matthew...
	Que pena  o menino comentou, decepcionado.
	Voc deve estar brincando!  Louis exclamou, quase ao mesmo tempo.
	Por que tanto espanto?  Jade surpreendeu-se.  Eu lhe disse, ontem, que pretendia partir hoje.
	Voc se esquece de que nevou a noite inteira  Louis contraps.
	Eu j contei isso a Jade, agora h pouco, l no quarto 	Matthew interveio.  E ela foi at a janela...
	E ficamos juntos observando a paisagem  Jade completou.
	Foi!  Matthew assentiu, com um sorriso.
O menino parecia estar se afeioando rapidamente a Jade, Louis pensou, no muito surpreso. Afinal, aquela mulher tinha mesmo a capacidade de encantar as pessoas.
	Mesmo assim, estou disposta a tentar sair daqui, nesta manh  Jade reafirmou, categrica.
"Ela apenas continua encantadora, mas igualmente teimosa", Louis concluiu, antes de dizer:
	Se ontem as estradas secundrias j estavam impedidas, imagine hoje! Quem quiser transitar por elas, ter de esperar at que o clima melhore. E se as nuvens que vi acumuladas h pouco, no horizonte, continuarem por l, teremos mais chuva.
Jade considerou o argumento por alguns instantes, mas insistiu em seu ponto de vista:
	Voc acha que a rodovia principal tambm est intransitvel?
	Deve ter estado, mas a essa altura a prefeitura j a desimpediu. Afinal, no se pode interromper o trfego interestadual.
Jade sorriu, triunfante:
	Ento, se eu chegar at l, no terei problemas em seguir ate Portland.
	Sim?  Louis cruzou os braos, numa atitude de desafio.
E como pretende alcanar a rodovia? Por acaso seu carro  equipado com asas?
Jade suspirou, inquieta.
	Acontece que preciso voltar a Portland o mais rpido possvel.
	Voc disse exatamente isso, ontem  Louis retrucou, um tanto rspido.  Seu namorado realmente deve ser algum especial, para causar-lhe tanta preocupao. Por que no liga para ele, avisando que ter de ficar aqui por mais um dia? A menos que o rapaz seja do tipo machista e...
	Estamos na presena de Matthew  Jade o interrompeu, no mesmo tom.  Que tal controlar o mau humor e poupar-me de suas provocaes?
Louis fitou-a com certo espanto, mas por fim assentiu. Detestava perder o controle, em qualquer ocasio... Sobretudo diante do pequeno Matthew, que no tinha culpa dos problemas dos adultos. Mas o simples fato de imaginar Jade nos braos de outro homem j era suficiente para tir-lo do srio.
	Desculpe  ele disse, com um suspiro. Voltando-se para o menino, indagou:  Terminou seu caf da manh, parceiro?
	J faz tempo  Matthew respondeu.  E estou com vontade de brincar.
	Ento, por que no vai se trocar? Afinal, temos de construir um boneco de neve.
	Oba!  Matthew exclamou, radiante.
	No se esquea do bon-e das luvas  Louis recomendou, ao v-lo sair da cozinha em disparada.
Por um longo tempo, Jade e Louis ficaram em silncio. O clima era de tenso e desafio.
Com gestos um tanto trmulos, Jade serviu-se de uma xcara de leite com aveia. Levou-a aos lbios e sorveu um pequeno gole. Mas, de repente, havia perdido o apetite.
	E ento?  Louis disse, por fim.  Resolveu desistir dessa ideia maluca?
	De voltar para Portland?  Jade indagou.
	Sim.
	Ainda estou com vontade de arriscar...
	No existe lei alguma contra o ato de tentar  Louis sentenciou, num tom severo.  De bom grado eu me ofereceria para ajud-la, se houvesse ao menos uma chance de voc conseguir seu intento. Mas no vejo por que dispender energia nessa insensatez. Portanto...
	Voc no vai me ajudar  Jade concluiu, com um suspiro.
	Exato. No endossarei uma atitude que s posso chamar de... loucura.  Louis ergueu-se.  Com licena. Vou me juntar a Matthew que, apesar dos seus seis anos de idade, certamente tem mais juzo do que voc.  E saiu.
Por alguns minutos Jade continuou sentada  mesa, pensando em qual seria a melhor atitude a tomar.
Loucura seria permanecer no chal por mais um dia, sujeita queles olhos azuis e feiticeiros, que to bem sabiam domin-la.
Talvez estivesse mais protegida l fora, no meio de uma estrada deserta e coberta de neve, do que no interior aquecido
do chal.
Era nisso que Jade pensava, com um misto de amargura e ironia. Levantando-se, ela foi at a janela e abriu a cortina. Os flocos de neve continuavam a cair, embora j no ventasse como antes.
Embora a contragosto, Jade reconheceu que Louis tinha razo. Ela no conseguiria chegar  rodovia principal, nem por
um milagre.
 Mais um dia...  murmurou, encostando a testa na vidraa gelada.  Mais um dia vulnervel a Louis e a tudo que ele representa. Mais um dia olhando para Matthew e pensando no beb que perdi...
As lgrimas afloraram-lhe aos olhos. Claro que o menino no tinha culpa de despertar-lhe essa triste lembrana. Mas o fato de ele e Louis se relacionarem to bem fazia com que Jade pensasse na criana que j teria trs meses, se houvesse vivido.
Alis, ela continuava ignorando o motivo pelo qual Louis tinha trazido Matthew para o chal. A menos que ele houvesse conseguido alguns dias de frias, o que era rarssimo... E que tivesse resolvido aproveit-las na companhia do garoto. Talvez Louis visitasse o pequeno Matthew com frequncia, j que tinha sido amigo de seus pais, mortos tragicamente num acidente areo. Esse raciocnio fazia sentido.
"De qualquer forma", Jade pensou, "no tenho nada a ver com isso, embora ache a atitude de Louis maravilhosa."
E lembrou-se da conversa que tivera com Louis, pouco antes dele romper o noivado. Falara com entusiasmo sobre como pretendia dedicar-se unicamente a ele e aos filhos, pouco se importando com seu prprio bem-estar. A felicidade de seus entes queridos seria a dela... Era isso que Jade afirmava, com fervor, naqueles dias. J Louis lhe parecera reticente, diante da ideia. No dissera, ostensivamente, que a ideia de ser pai o desagradava. Mas desconversara, argumentando que teriam tempo de sobra para pensar no assunto. Num tom gentil, mas inequvoco, discorrera sobre o rduo trabalho de criar uma criana, num lar slido e equilibrado. Por fim, confessara que ainda no se sentia apto  paternidade.
Jade, porm, preferira no esperar. Ansiava por um filho, fruto de seu amor com Louis, que viria completar sua felicidade... E acreditava que, a despeito dos receios que confessara, Louis seria um pai maravilhoso.
Agora, vendo-o tratar Matthew com carinho, dedicao e seriedade, Jade compreendia que no se enganara... Ao menos quanto a isso, j que errara redondamente em todos os outros julgamentos.
O modo brusco com que Louis rompera o romance, por exemplo, mostrara-lhe que ele no a amava de verdade.
Louis teria voltado atrs em sua deciso, se soubesse que ela estava grvida? Jade perguntou-se. E no era a primeira vez que essa questo acorria-lhe  mente.
Era bem possvel.que sim, que Louis se casasse imediatamente com ela, ao saber da gravidez. Mas Jade no aceitaria essa atitude. No queria que Louis estivesse a seu lado por caridade, mas sim por amor. E, isso, ele no pudera lhe dar.
Mas tampouco ela sabia da gravidez, durante a triste conversa que selara o final do romance. S descobrira o fato quando um mdico, no hospital de Los Angeles, dissera-lhe que as dores intermitentes que ela vinha sentindo desde o embarque em Nova Orleans eram um prenncio de aborto.
Jade experimentara, ento, duas emoes contraditrias: uma, de pura felicidade por saber que carregava um filho de Louis... E outra, de horror, perante a possibilidade de perd-lo.
Aps trs dias de repouso absoluto, no hospital, Jade acreditara haver superado a crise. No teria mais Louis... Mas guardava, dele, a mais preciosa prova de amor: um filho!
Porm no quarto dia Jade voltara a sentir-se mal. No quinto, um princpio de hemorragia prenunciara o pior, que s viria a se concretizar vinte e quatro horas depois... com a perda do beb.
Durante a profunda crise que se seguira quele triste acontecimento, Jade compreendera o quanto fora tola, ao sonhar com uma vida ao lado de Louis.
Afinal, ele era um homem sofisticado, bem-sucedido, inteligente, belo... Por que se interessaria por ela, uma garota simples, que abandonara a faculdade no terceiro ano de curso e no tinha ambio alguma seno faz-lo feliz?
Uma lgrima furtiva escorreu pelo rosto de Jade, que enxugou-a com um gesto nervoso.
L estava ela de novo acalentando recordaes dolorosas, que no a levariam a lugar algum, seno a mais sofrimento.
Era melhor fazer algo til, em vez de continuar relembrando o passado.
Afastando-se da janela, Jade comeou a tirar a mesa do caf. Lavou a loua na pia e deixou-a no escorredor. Em seguida guardou o leite, acar, gelia e outros alimentos na geladeira.
Conformada  triste realidade de passar mais um dia no chal, decidiu telefonar para a revista Everywoman Magazine, onde trabalhava. Tinha se esquecido de consultar o micro-computador naquela manh, para ver se havia alguma mensagem. Mas, de qualquer forma, queria falar com a editora que, alm de chefe, era sua amiga.
O telefone ficava na sala, numa mesinha de canto, ao lado de uma confortvel poltrona. Jade sentou-se e interrompeu o gesto de pegar o fone, ao ver Louis se aproximar. Estava incrivelmente belo, vestido inteiramente de bege, com um casaco de pura l que lhe caa at o meio das coxas. Usava tambm botas de cano alto, apropriadas para a neve, luvas e um gorro marrom, com desenhos de lhamas, animais tpicos dos andes.
	Infelizmente, voc no poder contatar seu namorado, agora  ele informou-a, irnico.
	Por qu?  Jade indagou, num tom seco.
	Acabam de anunciar, pelo rdio, que as linhas telefnicas acabam de ser cortadas e ficaro mudas at o final da tarde. A tempestade causou problemas, inclusive falta de energia eltrica.
	Mas no estamos sem luz  Jade argumentou, apontando a luminria na parede, que espalhava uma tnue luminosidade no ambiente.
	Sem luz, no...  Louis concordou.  Mas sem energia eltrica, sim.  Ante o olhar confuso de Jade, explicou:  Meu pai instalou um gerador aqui, no incio do ano. Ns o estamos utilizando, neste exato momento.
	Entendo.  Jade levantou-se, decidida a retirar-se para o quarto.
	Mas esta ainda no  a pior parte  Louis prosseguiu.
	Como assim?
	De acordo com o ltimo boletim meteorolgico, que acabei de ouvir no quarto enquanto me aprontava para brincar com Matthew, o clima continuar assim por mais um dia ou dois.
	Oh, no!  Jade deixou-se cair de volta sobre a poltrona.
	Acho que de nada adianta desesperar-se  ele comentou, num tom calmo, que s serviu para deix-la ainda mais exasperada.  O melhor que voc tem a fazer  aceitar a realidade dos fatos... A menos que pretenda chegar a Portland de esquis.
	Ora, no diga bobagens  ela retrucou, irritada.
	Aposto que, se isso fosse possvel, voc de bom grado correria o risco de sair nessa nevasca... S para ficar longe de mim.
	Posso saber aonde voc pretende chegar, com essa conversa idiota?  Jade estava prestes a perder o controle.  J no me basta o aborrecimento de no poder voltar a Portland...
	Para encontrar seu namorado  Louis completou, sarcstico.  No era isso que ia dizer?
Jade o encarou com severidade:
	Escute aqui, Louis, essa histria sobre meu namorado j est me cansando.
	Perdoe-me.  Ele se desculpou, num tom subitamente srio.  Acho que no tenho o direito de fazer comentrios sobre sua vida pessoal.
	De fato, no tem. Mas desde ontem estou tentando esclarecer este assunto. E acho que farei isso agora, se voc permitir.
	Que assunto?
	Bem, eu lhe disse que tinha um compromisso em Portland e...
	Escute, voc no precisa me contar sobre seu namorado  ele a interrompeu. Decididamente, seria insuportvel ouvi-la falar de outro homem.
	Acontece que esse namorado, com quem eu supostamente deveria me encontrar, no existe.
	No?  Louis repetiu, confuso.  Mas voc disse...
	Que tinha um compromisso  ela completou.  E voc deduziu que se tratava de um encontro amoroso.
	Voc deixou que eu pensasse assim  Louis rebateu.
	A princpio, sim. Mas depois, quando tentei esclarecer o assunto, voc no quis me ouvir.
Louis assentiu com um gesto de cabea. Lembrava-se bem de Jade tentando lhe falar sobre o namorado... E de como ele a interrompera, sabendo que no suportaria.
	Antes tarde do que nunca  ela citou o velho provrbio e acrescentou:  Portanto, voc pode parar com suas piadinhas.
	Quer dizer que ontem, quando voc disse que tinha um compromisso inadivel, era mentira?  A pergunta de Louis soava como uma constatao.  Tratava-se apenas de uma desculpa para no confessar que a ideia de ficarmos sob o mesmo teto lhe  insuportvel... Certo?
	Ei, espere um momento  Jade defendeu-se.  Eu realmente tenho um compromisso inadivel, em Portland, para daqui a alguns dias. Trata-se de um almoo com minha editora, que tambm vem a ser uma grande amiga.
	Vernica Chapman  de fato uma pessoa admirvel Louis concordou.
Jade reagiu, surpresa:
	Como sabe que trabalho com Vernica Chapman...?
	Na revista Everywoman Magazine, para ser mais exato 	ele sentenciou, com um sorriso.  Acertei de novo?
	Sim  Jade respondeu, ainda mais espantada. Ento concluiu:  Oh, claro... Suponho que Hank tenha lhe contado sobre isso.
	Meu pai nunca toca no seu nome, em nossas conversas 	Louis afirmou.  Suponho que faa isso por delicadeza.
	Ento, como  que voc descobriu...
	Que voc  redatora free-lance, que tem feito um timo trabalho e recebeu um prmio no ms passado, por um belo artigo sobre mulheres clebres.  Ante o olhar atnito de Jade, continuou:  Parece-me que o artigo falava sobre um filme candidato ao Oscar... Como era mesmo o nome?
A excntrica famlia deAntonia Jade respondeu, perplexa.
	Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, derrotando duas outras grandes obras: O Quatrilho e O Carteiro e o Poeta.
	Pois . Voc o citou como ilustrao de seu artigo sobre mulheres ntegras e corajosas, que de algum modo marcaram sua poca. E mereceu o prmio que lhe conferiram.
	Mereci?  ela repetiu, com uma perplexidade ainda maior.
	Sim, pois li o artigo e francamente achei-o muito bom. A abordagem foi feita de maneira inteligente. E voc deixou espao suficiente para que o leitor tirasse sua prpria concluso. Alguns redatores cometem o erro bsico de impor seus pontos de vista nos artigos, tornando-os tendenciosos e pouco interessantes.
Jade simplesmente no sabia o que dizer. Estava feliz com os elogios de Louis, um jornalista muito mais experiente e renomado. Para ela, uma iniciante, a opinio de um profissional era extremamente preciosa.
Mas isso no era tudo. O que realmente a deixava to contente quanto atnita, era o fato de Louis saber tanto sobre sua vida profissional.
Como se lhe adivinhasse os pensamentos, ele confidenciou:
	Talvez voc no acredite, mas eu me interesso, sinceramente, por sua carreira. E, se me permite uma sugesto...
	Claro  ela apressou-se a dizer.
	Termine o curso de Comunicaes, Jade. Voc pode no estar sentindo falta dele, agora, j que tem um bom emprego como free-lance. Mas algum dia precisar de um curso superior.
 Num tom veemente, aconselhou:  No deixe que isso acontea. Retome os estudos agora, para no se arrepender mais tarde.
	Louis!  ela exclamou, com um sorriso comovido.  No sabia que voc se importava comigo.
Ele fitou-a com intensidade, antes de dizer:
	H muitas coisas que voc no sabe.
	Que tipo de coisas?
Antes que Louis pudesse responder, Matthew abriu a porta. Estava corado, ofegante, com as roupas salpicadas de flocos de neve:
	Ei, ns no vamos fazer o boneco de neve?
	Oh, claro  Louis respondeu, lanando um olhar ansioso a Jade, como se quisesse dizer algo mais.
Longe de imaginar o momento pungente que havia interrompido, o menino voltou-se para Jade:
	Voc no mudou de ideia?
	Como assim, querido?
	Ainda vai viajar para Portland?
	Acho que no. O clima est muito ruim.
Matthew sorriu:
	Ento, se quiser brincar...

	Desculpe, meu bem, mas vou aproveitar o tempo de outra forma  ela respondeu, num tom carinhoso.
	Que forma?  o garoto quis saber.
	Vou trabalhar.
	Aonde?
	Eu escrevo para uma revista, querido. E tenho de terminar um artigo ainda hoje.
	No pode fazer isso mais tarde?  o menino insistiu.
	Matthew...  Louis interveio, num tom carinhoso.  Jade j disse que prefere ficar trabalhando. Mas acho que ns dois poderemos nos divertir um bocado.
	T bom.  O menino sorriu para Louis e ambos saram.
Jade subiu para o quarto. De fato, pretendia trabalhar...
Caso conseguisse ordenar as ideias, totalmente confusas devido quela ltima conversa com Louis.
At ento, julgara que ele no se importasse com ela. Mas se Louis acompanhava sua carreira profissional... O que isso significava? Que preocupava-se com seu futuro? Que a admirava? O qu, afinal?
Assaltada por uma infinidade de perguntas, Jade atirou-se na cama. As imagens do passado vieram assalt-la, mas foram rechaadas com vigor e determinao.
Levantando-se de um salto, ela foi at uma mesa de canto e abriu o computador. Estava muito agitada e talvez conseguisse transformar aquela imensa dose de energia descoordenada em trabalho.
Ao menos, pretendia tentar...

CAPITULO V

Jade interrompeu o artigo que estava escrevendo, e leu o ltimo pargrafo.  Simplesmente pssimo  concluiu, aborrecida, apagando algumas linhas.
O fato era que no estava conseguindo se concentrar. As letras pareciam embaralhar-se na tela de fundo azul do mi-cro-computador... Azul como naquela manh de vero em que ela resolvera visitar o padrinho Hank, em Paradise Lake.
As frias tinham comeado e, embora estivesse matriculada num curso de vero que comearia na semana seguinte, Jade queria ficar alguns dias na adorvel companhia do padrinho.
Tivera sorte de desembarcar em Portland e logo pegar um nibus que estava saindo para Paradise Lake.
Trs horas depois, ela batia  porta do chal de Hank, pronta a fazer-lhe uma surpresa...
Mas fora Jade quem se surpreendera, quando Louis Ma-thieson atendera  porta.
No precisara pensar duas vezes para concluir que as fotos de Louis no faziam justia a sua beleza e carisma.
Os olhos azuis eram exatamente da cor do lago de guas lmpidas que havia na propriedade. O rosto de traos msculos, aberto num sorriso devastador, possua a beleza das antigas esttuas gregas. E o corpo, esguio e bem-proporcionado, no
ficava atrs...
Desde o primeiro momento em que o vira, aps tantos anos, Jade sentira-se tomada por uma forte emoo. O sangue comeara a correr mais rpido em suas veias, causando-lhe uma sensao que era a um s tempo deslumbramento e ansiedade.
O que significava aquilo?, ela se perguntava, fixando os olhos verdes nos de Louis.
	Ol.  Ele a fitava com curiosidade e simpatia.  Voc deve ser Jade Adams... Acertei?
	Sim  ela respondera, timidamente.  Como adivinhou?
	Meu pai mandou-me uma foto sua, tirada recentemente.
	 mesmo?  Jade comentara, comovida.
Ele assentira com um gesto de cabea, antes de acrescentar:
	Mas mesmo sem ver o seu retrato, eu a reconheceria.
	Ser?  ela indagara, com um sorriso.  Faz tantos anos que no nos vemos...
	Mas os olhos no mudam . Louis apartara.
	 verdade  Jade concordara.
	Entre  Louis convidara, dando-lhe passagem e pegando a valise de suas mos.
	Obrigada  Jade agradecera.
	Sente-se.  Louis meneara a cabea e sorrira:  Mas por que estou com tanta cerimnia? Afinal, esta casa tambm  sua.
	Obrigada  Jade tornara a agradecer, acomodando-se no sof.
Ele sentara-se numa poltrona e comentara, aps um breve silncio:
	Meu pai no me avisou de sua chegada. Acho que se esqueceu.
	Ele no sabia  ela esclarecera.  Alis, nem eu mesma planejava vir. E que o dia hoje amanheceu to bonito, prprio para se estar perto da natureza, nadar, tomar sol... Da, resolvi
fazer uma surpresa para Hank. A propsito, onde est ele?

	Foi passar o fim de semana na casa de alguns amigos, em Roseburg.
	Oh  Jade assentira, decepcionada. Com essa, ela no contava. E agora, o que deveria fazer... Voltar para Portland? Mas o prximo nibus para l s passaria dali a algumas horas.
	Concordo plenamente com voc.  A voz de Louis interrompera-lhe os pensamentos.
	Sobre o qu?  ela indagara, confusa.
	Sobre a beleza do dia  ele respondera, com aquele sorriso que parecia iluminar tudo ao redor.  Eu estava justamente pensando em nadar e tomar um pouco de sol. Quer me fazer companhia?
	Sim  ela aceitara o convite, sem pensar, erguendo-se de um salto.  Vamos para a piscina?
	Acho que  melhor nos trocarmos, antes.
	Oh, claro  Jade concordara, afastando uma mecha ruiva que caa-lhe sobre a testa. Estava muito perturbada e no conseguia raciocinar com clareza. Nunca sentira-se assim diante dos rapazes da faculdade. Mas, pensando bem, eles nem de longe poderiam ser comparados a Louis. Afinal, eram simples rapazes... Enquanto que Louis era um homem. Isso fazia toda a diferena.
O fato era que Louis tinha algo mais, alm da simples beleza fsica. Possua um carisma, uma fora capaz de impressionar o mais insensvel dos seres humanos. Era sobre isso que Jade cogitava, enquanto ambos subiam as escadas, em direo ao segundo andar do chal.
	Onde fica sua sute?  ele perguntara, carregando sua valise.
	Ali...
	Certo.  Louis depositara a valise diante da porta. Bem, ns nos veremos daqui a pouco.
	Est bem.
Quando encontrara Louis na piscina, cerca de quinze minutos depois, Jade j previa que aquela tarde seria inesquecvel... E acertara em cheio.
Confiante em seu maio azul-turquesa, de duas peas, ela nadara por um bom tempo e por fim acomodara-se numa das vrias espreguiadeiras que circundavam a piscina.
O sol acariciava-lhe o corpo, naquele incio de vero.
Jade tinha tudo para sentir-se bem... Mas uma profunda inquietao no a deixava relaxar. A todo momento erguia-se sobre os cotovelos para observar Louis que, usando uma minscula sunga preta, nadava com a categoria de um campeo. Passava do estilo crawl ao clssico, depois ao borboleta e finalmente retomava o crawl. Era maravilhoso apreciar-lhe os movimentos harmnicos, executados com perfeio pelo corpo bronzeado e msculo, capaz de tirar o flego da mais exigente das mulheres.
Quase sem se dar conta, Jade comeara a imaginar como seria a sensao de tocar aquele corpo perfeito, de receber um beijo daquela boca sensual.
A fantasia tornara-se realidade mais tarde, naquela mesma noite. E no momento em que Louis cobrira-lhe os lbios com os seus, Jade entendera que sua vida nunca mais seria a mesma, dali por diante.
Nada a havia preparado para aquela avalanche de emoes. O beijo fora leve, a princpio... Um simples roar de lbios, antes de um contato mais intenso e ousado. Mas j naquele primeiro instante Jade compreendera que Cupido a acertara em cheio... Caso contrrio, como explicar aquele sbito aperto no corao, aquele misto de alegria e assombro que a arrebatava de si mesma e do mundo ao redor?
A tela do micro-computador escureceu, indicando que a bateria estava no fim e precisava ser recarregada.
De volta ao momento presente, Jade meneou a cabea, com uma expresso triste. No tinha conseguido produzir nada, mas nem por isso iria desistir.
Estava recarregando a bateria, quando ouviu gritos, vindos de fora. Aproximando-se da janela, avistou Louis e Matthew, em meio a uma verdadeira guerra de bolas de neve.
J tinham construdo um imenso boneco, devidamente equipado com um velho cachecol e chapu.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Jade, diante daquela cena to comum e ao mesmo tempo comovente.
Matthew, empenhado na batalha, nem se deu conta de que estava sendo observado. Mas Louis, a certa altura, ergueu o rosto e deteve-se a fit-la, por alguns instantes... At que foi atingido em cheio por uma bola atirada por Matthew.
	Ei, Louis!  o menino gritou.  Voc est dormindo, ?
	Estou muito desperto e vou lhe mostrar uma coisa.  Com uma pontaria certeira Louis atirou uma bola, sem muita fora, acertando-o na perna.
No instante seguinte, ambos j estavam rolando pelo cho, em meio a risos de alegria.
Jade afastou-se da janela, decidida a ficar no quarto durante o resto da manh. Terminou de recarregar a bateria e retomou o trabalho. Ia terminar aquele artigo, nem que levasse o dia todo.
J passava do meio-dia, quando ela finalmente concluiu o trabalho. Estava satisfeita com o artigo e isso ajudou-a a sentir-se melhor. Aps fechar o micro-computador, resolveu descer  cozinha para preparar o almoo. Certamente, Louis e Matthew voltariam famintos de sua guerra de bolas de neve, ela pensava, descendo as escadas.
Mas para sua surpresa encontrou Matthew sentado  mesa, diante de um tabuleiro de xadrez.
	Ol  ela o saudou, com sorriso.
	Oi, Jade.
	Onde est Louis?
	L fora, limpando o deck.  Matthew se referia a um grande tablado de madeira,  margem do lago, recentemente erguido por Hank. O deck, no vero, era o local ideal para se tomar sol e apreciar a paisagem.  Louis disse que tem muita neve, l em cima.
	E a estrutura pode rachar, devido ao peso  Jade concluiu.
	. Depois que ele terminar de tirar a neve, ns vamos jogar uma partida.  O menino apontou as peas j dispostas sobre o tabuleiro.
	Muito bem. Jade sorriu.  Mas voc no acha que seria melhor almoar, antes da partida?  Ns j almoamos.
	No diga!  Jade surpreendeu-se.  Pois eu estava justamente planejando fazer algo bem gostoso para ns trs.
	Louis j fez  o menino anunciou.  Escute, Jade, voc gosta de ravili?
	Adoro.
	Com recheio de ricota e molho branco?
	Melhor ainda!
	Louis disse mesmo que voc ia gostar.
	Ei, no me diga que ele fez...
	O seu prato est no forno  Matthew a interrompeu.
	No acredito!  Jade exclamou, surpresa.
	Est me chamando de mentiroso?  Matthew indagou, franzindo a testa.
	Claro que no, querido.  Ela caminhou em direo ao fogo.  Estou apenas espantada com os progressos culinrios de Louis.
	Ele  um grande... Como se diz?
	Gourmet  Jade respondeu, retirando do forno um prato de cermica com uma boa poro de ravili.
Estava delicioso e nada ficava devendo s boas cantinas italianas da regio. Jade comeu com apetite, comentando a todo momento o sabor sutil do prato.
	Puxa, eu j ia me esquecendo...  Matthew levou a mo  testa.
	Do qu?  Jade indagou, curiosa.
	De falar sobre o vinho.
	Que vinho?
	Louis guardou a garrafa no gaveto da geladeira. Falou que era para voc tomar um copo junto com o almoo.  Apontando o prato j praticamente vazio, acrescentou:  Acho que avisei um pouco tarde, no?
	Que nada.  Jade saboreou a ltima garfada de ravili e levantou-se.  O vinho vai servir para coroar a refeio.
	Como assim., coroar?  Matthew perguntou, curioso.
	Significa terminar de um jeito bom  Jade esclareceu, abrindo a geladeira e retirando, da gaveta de verduras e legumes, uma garrafa de Concha y Toro. O vinho tinto, procedente do Chile, era um dos seus preferidos. Alis, fora Louis quem a ensinara a sabore-lo, bem como a tantos outros.
	Gostou do ravili?  Matthew perguntou.
	Estava simplesmente delicioso  Jade respondeu, depois de sorver um bom gole de vinho.  Hum... H quanto tempo eu no provava um Concha y Toro.
	Prefiro suco de laranja  o garoto opinou.  Esse vinho tem um gosto esquisito.
	E como sabe disso, mocinho?
	Louis me deixou provar  ele explicou, com uma careta.  Mas achei muito ruim.
	Bem, algum dia voc saber apreci-lo. Mas at l ter tempo de sobra para saborear muitos sucos de laranjas Jade afirmou, tomada por um sbito bom humor. E no era para menos. Afinal, quem conseguiria ficar triste ou irritado, depois de uma refeio daquelas?
Matthew observou-a com ateno, at que ela terminou o vinho. Ento props:
	Que tal jogar uma partida?
	Est bem. Voc me d s um minuto, para escovar os dentes?
O menino assentiu com um gesto de cabea e Jade subiu para o quarto. Desceu em poucos minutos, um tanto apreensiva. No queria encontrar Louis, naquela tarde. Era melhor preservar-se. Poderia escolher um bom livro na biblioteca do chal e passar o resto do dia lendo.
Mas, por outro lado, no havia tido coragem de recusar a sugesto de Matthew. E, pensando bem, uma partida de xadrez no levaria muito tempo.
Ser que Matthew sabia o movimento correto de cada pea? Ela se perguntou. Ele era to pequeno, apesar de bastante inteligente...
Matthew no apenas conhecia os movimentos das peas, mas todas as regras do jogo. Foi isso que Jade constatou, logo no incio da primeira partida... Que conduziu a uma segunda, fazendo-a esquecer da deciso de recolher-se para o quarto.
Louis entrou no chal e logo ouviu o riso de Matthew, vindo da cozinha.
Apoiando-se  parede, tirou as botas de cano alto e o casaco. Em seguida foi at a sute de hspedes, para se trocar.
A caminho do corredor, tornou a ouvir Matthew rindo, dessa vez mais alto e por mais tempo.
Como adorava aquele som, como adorava aquele garoto, ele pensava, ao entrar na sute. Caminhando a passos largos at o banheiro, deixou as botas a um canto e pendurou o casaco num cabide.
Ali estavam, tambm, as botas de Matthew e as roupas que ele usara para brincar.
Louis sorriu. Decididamente, Matthew era um garoto especial. E com que nobreza havia superado o sofrimento de perder os pais, numa idade em que tanto precisava deles.
Louis fechou os olhos por um momento, enquanto a imagem de Nina e Philip Carmichael estampava-se em sua mente. Por vezes, ainda era difcil acreditar que ambos haviam partido para sempre.
Fora terrvel perder seus melhores amigos. E depois viera uma dura fase de aceitao da ideia, juntamente com uma no menos dura fase de adaptao ao papel de pai de Matthew. Durante as primeiras semanas, Louis sentira-se simplesmente perdido. No tinha a menor ideia de como portar-se ou do que dizer a um garotinho de quase seis anos, que recusava-se a falar ou reagir a qualquer estmulo exterior.
Naturalmente, essa era uma atitude previsvel numa criana que houvesse perdido os pais. S que o tempo passava e Matthew continuava do mesmo jeito. Comia pouco e ficava horas com os olhos fixos no vazio, fechado em seu prprio mundo.
Aps trs semanas de infrutferas tentativas para trazer Matthew de volta  realidade, Louis tomara uma deciso: tinha duas frias vencidas para tirar. E chegara o momento de desfrut-las. O diretor do programa jornalstico para o qual trabalhava reagira da maneira esperada: no queria que seu melhor reprter tirasse frias, pois isso causaria uma significativa perda de audincia. Talvez at mesmo a runa do programa.
Louis, porm, explicara o momento difcil pelo qual estava passando. E acabara convencendo o diretor, que ainda a contragosto concedera-lhe um dois meses de frias.
Era o que Louis precisava. Com a ajuda de um eficiente psiclogo, fora aos poucos ganhando a confiana e afeto de Matthew.
Outro fator que ajudara muito fora a longa viagem pela Amrica do Sul que ele fizera com o menino, logo aps os primeiros sinais de recuperao. Tinha o palpite de que o fato de conhecer lugares e pessoas novas ajudaria Matthew a vencer a crise. E acertara em cheio.
Cerca de duas semanas aps o incio da viagem, Matthew parecia outro menino.
A dedicao de Louis tivera timos resultados. E quando ambos voltaram para casa, um lao muito forte os unia. Amavam-se como pai e filho. E nada no mundo poderia mudar esse fato.
Tudo correra bem, por algum tempo. Louis contratara uma governanta, para fazer companhia a Matthew enquanto ele trabalhava.
O menino a princpio reagira mal  presena da mulher. Queria ficar apenas com Louis e ningum mais.
Pacientemente, Louis explicara-lhe a necessidade de retomar o trabalho. Chegara inclusive a lev-lo  emissora.   .
Assim, Matthew fora aos poucos compreendendo que j no poderia ter Louis durante o dia todo. Paralelamente ia se afeioando  governanta, uma senhora chamada Jenniffer Stone, que o tratava com o carinho de uma av para com o neto.
As coisas comeavam a se encaixar. A vida assumia um ritmo mais tranquilo.
Mas h cerca de um ms a governanta partira para Michi-gan, a fim de morar com a filha, que acabara de ter trigmeos.
 Sinto muito, senhor... Eu adoro Matthew, mas no posso continuar no emprego  dissera, com lgrimas nos olhos.  Minha filha precisar de mim, ao menos no primeiro ano de vida dos trigmeos.
	Eu compreendo  Louis respondera.  Ser difcil encontrarmos algum como a senhora. Competente, com bom corao e um carter ntegro. Essas so suas principais qualidades, que farei questo de ressaltar numa carta de referncias.
De fato, Louis dera-lhe a carta, juntamente com uma boa gratificao. E a sra. Jenniffer Stone partira.
Tal como Louis previra, seria muito difcil encontrar uma nova governanta. At o momento, todas as candidatas haviam lhe parecido insuficientes.
E como se esse problema no bastasse, um outro, bem mais grave, ocorrera.
Logo aps a partida de Jenniffer Stone, Louis recebera uma carta de um advogado de San Francisco, convocando-o para comparecer a uma audincia, juntamente com Matthew.
O advogado dizia-se representante de Brbara e Alex Turner,. tios de Matthew, que de repente haviam decidido assumir a custdia do menino.
	Que absurdo  Louis murmurou, decidido a no pensar mais no assunto, ao menos enquanto no tivesse uma resposta mais concreta. A advogada que contratara para cuidar do caso prometera-lhe encontrar uma boa sada. S que ainda no dera notcias e isso o estava deixando ansioso. De qualquer forma, de nada adiantava ficar se torturando. Precisava, isso sim, fortalecer-se para enfrentar a luta, quando chegasse o momento.
Louis trocou de roupa e saiu da sute. Estava ansioso por uma xcara de ch, caf ou chocolate... Qualquer coisa, desde que fosse bem quente.
A caminho da cozinha, ouviu novas exclamaes de Matthew, seguidas daquele riso claro e cristalino que sempre o comovia.
	O que est havendo por aqui?  perguntou, ao entrar.
	Um massacre  Jade respondeu, num tom bem-humorado.  Pois Matthew j me derrotou cinco vezes.
	Quando se trata de xadrez, ele  uma grande autoridade  Louis comentou, acariciando os cabelos do menino.
	Um grande gourmetl  Matthew exclamou, radiante.
	Sim, querido, s que a palavra gourmet serve apenas para os grandes cozinheiros  Jade explicou
	E como se chamam os bons jogadores de xadrez?
	Enxadristas.  Louis pronunciou lentamente a palavra, que Matthew repetiu com ar concentrado.
	O almoo estava timo  disse Jade.  Foi uma verdadeira surpresa... Deliciosa, por sinal.
	Que bom que voc gostou.  Ele sorriu, lisonjeado.
	Gostei? Eu simplesmente adorei, Louis. Voc est de parabns.
	Obrigado.  Louis pegou a garrafa trmica e serviu-se de uma xcara de caf.  Algum est servido?  perguntou, embora soubesse que Matthew quase nunca tomava caf.
	Agradeo, mas vou dispensar.  Jade voltava a concentrar-se no jogo.  Alm do mais, preciso salvar a vida de um bispo que est prestes a ser engolido pela rainha de Matthew.
	O problema no  o bispo - Louis opinou, depois de sorver um gole da bebida fumegante.
	Como no, se a rainha o est ameaando?  Jade retrucou, erguendo os olhos do tabuleiro.
	Pode ajud-la, se quiser  disse Matthew.  Mas acho que ela j perdeu.
	No cante vitria to cedo, mocinho  Jade o advertiu, sorrindo. Jogando com o cavalo, colocou-o na frente do bispo, ameaando a rainha adversria.
Estava to empenhada em salvar o bispo, que descuidou-se do rei. E Matthew, em apenas duas jogadas, deu-lhe o xeque-mate.
	Eu desisto.  Jade derrubou o rei sobre o tabuleiro, no simblico gesto de rendio.  Esse menino  um assombro.
Louis concordou com um gesto de cabea:
	Ele no vai a lugar algum, sem o seu jogo de xadrez.
	Quem o ensinou a jogar, Matthew?  Jade perguntou.
	Louis  o menino respondeu.  Ele ainda est me ensinando.
	De fato, continuo sendo o professor  Louis comentou, divertido.  Mas em breve me transformarei num mero aluno. Sabe que Matthew j me derrotou vrias vezes? 
	No duvido. Vocs jogam com frequncia?  Jade perguntou.
	Sim  Matthew respondeu, enquanto arrumava novamente as peas sobre o tabuleiro.  s vezes Louis chega cansado do trabalho, mas mesmo assim jogamos umas duas partidas.
Jade sorriu:
	Puxa, vocs se vem sempre, hein? E bom saber que passam tanto tempo juntos.
	Na verdade,  natural, j que moramos na mesma casa 	disse Louis.
	E gostamos muito de ler juntos, tambm  Matthew anunciou.  Isso tambm  muito bom, no acha?
Jade estava perplexa demais para responder.
	Voc disse que... moram juntos?  indagou, duvidando de que tivesse ouvido bem.
	Sim.  Louis terminou o caf e depositou a xcara na pia.  S ento explicou: como guardio legal de Matthew, devo e quero receb-lo em minha casa.  Lanando um olhar ao menino, acrescentou:  No  mesmo, parceiro?
	!  Matthew assentiu, com um largo sorriso.  E agora, vamos jogar damas? Voc disse que seu pai tem um jogo, l na estante da sala. E prometeu que me mostraria.
	E vou cumprir a promessa, rapaz  Louis assegurou.
	Se voc quiser, v armando o tabuleiro. Poderemos jogar
diante da lareira.
	Oba!  Matthew aprovou, satisfeito, saltando da cadeira.
	E vamos acender o fogo, antes?
	Sim. Mas espere-me, para fazermos isso juntos. Por enquanto, v s armando o jogo, est bem?
	Combinado.  E o garoto saiu em disparada em direo  sala.
	Esse menino tem uma energia incrvel  Louis comentou, sentando-se  mesa.  Quando a nossa j est acabando, a dele ainda nem chegou ao meio...
Mas Jade ignorou o comentrio. Estava atnita com a revelao que acabava de ouvir.
	Eu no sabia...
	Que eu era o tutor de Matthew?  Louis completou.
	Voc nunca mencionou isso.
	No tive oportunidade. Afinal, faz um ano que no nos vemos.
	E como foi que aconteceu?  Jade indagou, mas corrigiu-se no instante seguinte:  Responda se quiser. No quero parecer indiscreta, ou bisbilhoteira.
	Voc nunca teve essa triste vocao.  Louis ficou em silncio, com ar pensativo, antes de explicar:  H cerca de seis anos, no primeiro aniversrio de Matthew, Nina e Philip ofereceram um almoo para os amigos mais ntimos. Eu estava l e lembro-me de que fiquei para dormir.  noite, enquanto conversvamos, Nina disse-me que queria me pedir um favor.
	Qual?
	Que eu assumisse a guarda de Matthew, se um dia ela e Philip faltassem.  Louis suspirou, passando a mo pelos cabelos negros.  Chamei-a de boba e mudei de assunto. Mas, aqui dentro...  ele tocou o peito  altura do corao  dei-lhe minha palavra de honra. Naturalmente, jamais pensei que isso fosse acontecer.
Um silncio carregado de tristeza caiu entre ambos. Penalizada, Jade tentou consolar Louis:
	Se me permite uma opinio, voc est fazendo um timo trabalho com Matthew.
	Voc acha mesmo?  Ele fitou-a nos olhos, como se quisesse confirmar a veracidade daquela afirmao.
	No apenas acho, como tenho certeza  Jade sentenciou.
 Vocs parecem pai e filho.
	E, de algum modo, somos.
	Mais do que isso, vocs so duas almas que se compreendem profundamente, a despeito da diferena de idade ou de qualquer outra coisa.
Uma centelha de luz brilhou nos olhos azuis de Louis. E sua voz soou comovida, ao dizer:
	Obrigado. Voc no imagina o quanto suas palavras me fazem bem... Sobretudo nesse momento difcil que Matthew e eu estamos passando.
Jade quis perguntar o que, exatamente, Louis queria dizer com momento difcil. Mas a voz do pequeno Matthew soou exigente, na sala:
	Ei, Louis! O jogo j est armado! Posso comear a acender a lareira?
	Ainda no!  Louis respondeu, elevando a voz.   melhor cuidarmos disso juntos.  Voltando-se para Jade, desculpou-se:  Sinto muito, mas prometi a Matthew que...
	Eu compreendo  ela o interrompeu, num tom amvel. Mas, no fundo, gostaria que Louis ficasse um pouco mais... Afinal, aquela era a primeira vez que ambos conversavam sem nenhum tipo de provocao ou ofensa.

CAPITULO VI

Passava das onze da noite. A energia eltrica havia voltado, mas as linhas telefnicas continuavam mudas em toda a regio.
O noticirio da rdio local informara que uma equipe da companhia telefnica estava trabalhando desde o incio da tarde, para restabelecer as linhas.
Em frente  lareira, acomodado em dois almofades que serviam como colcho, Matthew dormia serenamente, coberto com uma manta. Seu bracinho direito, cado para o lado, quase tocava o tabuleiro de damas, com as pedras amontoadas no centro.
Sentado numa confortvel poltrona, Louis sorvia um brandy em pequenos goles, com uma expresso pensativa. Ainda no tinha encontrado uma soluo para o problema da custdia de Matthew.
Ao chegar ao chal, na tarde anterior, julgara estar no local ideal para refletir... Entretanto, o reencontro com Jade viera trazer-lhe um novo problema.
Agora, tinha de solucionar dois impasses: assegurar a vitria na audincia que definiria o destino de Matthew... E encontrar um jeito de lidar com os sentimentos que ainda nutria por Jade. Pois era intil negar que continuava a am-la, como sempre... Talvez at mais.
Louis no saberia dizer qual dos problemas era mais complexo. Por um lado, estava arriscado a perder Jade novamente. Por outro, a perder a tutela de Matthew.
Um profundo suspirou brotou do peito de Louis.
A atitude inesperada de Brbara e Alex Turner, respectivamente irm e cunhados de Nina Carmichael, o havia deixado to perplexo quanto furioso.
De um momento para o outro, ambos haviam resolvido que o pobre Matthew precisava de carinho e apoio. Mas o verdadeiro motivo daquela sbita preocupao era bem outro... Que nada tinha a ver com o bem-estar do garoto, mas sim com a herana deixada pelos pais, da qual ele se apossaria quando completasse a maioridade.
Louis fechou os olhos por um instante. Era duro aceitar que existiam pessoas assim, inescrupulosas, capazes de qualquer coisa por dinheiro.
Se Brbara e Alex Turner realmente amassem Matthew, poderiam v-lo com frequncia. E no seria ele, Louis, a tentar impedi-los. Ao contrrio: teria imenso prazer em saber que Matthew era querido pelos tios. E at pediria a opinio de ambos, sobre vrios assuntos referentes a sua criao. No prximo ano, por exemplo, Matthew comearia a frequentar a escola. E Louis sentia-se em dvida sobre qual estabelecimento deveria escolher, qual linha de ensino seria a mais adequada para o menino... Nisso, e em tantas outras coisas, Brbara e Alex Turner poderiam ser seus aliados. Mas haviam preferido assumir o papel de adversrios. Agora, Louis no tinha outra alternativa seno tentar derrot-los no tribunal.
Havia contratado uma advogada competente em San Francisco, para cuidar do caso. Afinal, era l que seria realizada a audincia, por tratar-se da cidade onde Brbara e Alex Turner residiam.
A advogada, Kelly Moore, tentara exaustivamente cancelar a audincia, alegando que Louis j possua a tutela de Matthew. E que como essa tutela fora outorgada por um juiz, no havia por que contest-la, a menos que o casal Turner tivesse provas concretas contra ele.
O argumento fora rejeitado. A audincia estava prestes a acontecer. E Louis sentia-se num beco sem sada.
O fato de Brbara e Alex Turner serem parentes de Matthew significava um ponto importante a favor deles. Havia um tpico na lei de adoo que dizia que a criana desamparada deveria ser entregue aos cuidados de um parente prximo... Seria nesse ponto que o advogado dos Turner se apoiaria, sem sombra de dvida.
A dra. Kelly Moore garantira a Louis que tentaria de tudo para conseguir manter a custdia que ele recebera h pouco menos de um ano. Mas fora franca ao avis-lo das dificuldades relativas ao caso. E Louis agora tentava desesperadamente encontrar uma soluo. A ideia de perder Matthew era-lhe insuportvel.
Louis s esperava que o juiz que presidiria a audincia fosse perspicaz o suficiente para perceber as verdadeiras intenes dos Turner. Caso contrrio...
Louis no conseguiu concluir o pensamento. Jade acabava de voltar da cozinha, onde havia lavado a loua do jantar. Estava encantadora, nas roupas que ele havia lhe emprestado na noite anterior. Os cabelos ruivos, presos num rabo-de-cavalo, davam-lhe uma aparncia quase infantil.
Alis, Jade sempre soubera mesclar os encantos de uma menina com a sensualidade marcante de uma mulher... E o resultado era devastador.
	Vou dormir  ela anunciou, de passagem.
	Por que n toma um brandy comigo?  ele convidou.
Jade quis recusar, mas um olhar mais atento avisou-a de que Louis estava com problemas. Parecia triste, cansado, como se carregasse nos ombros o peso do mundo.
	Ei, o que h com voc?  ela indagou, preocupada.
Por um instante Louis quis desabafar, contar sobre o momento difcil que estava passando, sobre o perigo de perder Matthew. Queria confessar tambm seus sentimentos, dizer-lhe que nada havia mudado, que sempre a amara, apesar de parecer justamente o contrrio. Mas calou-se. No sabia como Jade reagiria a uma nova declarao de amor. Com certeza tinha todo o direito de destrat-lo, depois do que ele fizera...
Quanto a Matthew, bem... Em que, exatamente, Jade poderia ajud-lo? Nada. Era melhor, portanto, poup-la do desabafo.
 E ento?  ela insistiu, longe de imaginar os pensamentos de Louis.  No vai me dizer o que o preocupa?  Ora...  Ele forou um sorriso.  Eu apenas pensava nos problemas da vida.
	E no h nada que eu possa fazer...?
	Aceitar meu convite para o drinque  ele respondeu, antes que Jade conclusse a frase.  Isso seria de grande ajuda.
	No vejo porqu.  Ela sentou-se no sof.  Mas se voc diz... vou aceitar.
	Otimo.  Louis levantou-se e, caminhando at o bar, serviu um drinque para Jade e completou o que estava tomando.
	Aqui est.  E estendeu-lhe o clice de cristal alemo legtimo.
	Obrigada.
	 nossa sade.
	A nossa.
Os clices tilintaram e ambos ficaram em silncio por alguns instantes.
	Matthew parece um anjo, no acha?  Jade comentou, apontando o menino adormecido, em frente  lareira.
Louis concordou, comovido:
	No incio de nossa convivncia, Matthew tinha pesadelos terrveis. Eu passava boa parte da noite em claro, pois queria estar acordado para confort-lo. Mas j faz um bom tempo que ele dorme muito bem.  Louis fez uma pausa. Em seguida confidenciou:  Mas s vezes acordo e vou at o quarto dele, s para v-lo dormir desse jeito sereno, que  to comovente.
Jade sorriu:
	 incrvel... Quero dizer,  maravilhoso v-lo desempe
nhando a funo de pai. E com uma competncia  toda prova!
	acrescentou, impedindo que uma lembrana triste viesse turvar aquele momento... A lembrana do beb que perdera, h um ano.
	Voc no sabe o quanto me faz bem ouvi-la falar assim 	Louis afirmou, com um suspiro.  Sobretudo neste momento em que...
O telefone tocou, interrompendo-o.
	Ora!  Jade comentou, surpresa.  O pessoal da companhia telefnica j terminou o trabalho.  E atendeu, j que estava mais perto do aparelho.  Al?
	Deve ser o meu pai  disse Louis.
Mas estava enganado.
	 a dra. Kelly Moore, de San Francisco  Jade informou-o.  Bem com licena. Vou terminar o drinque no quarto.
	No  preciso  Louis afirmou, pegando o fone.
	Achei que voc ficaria mais  vontade para falar...
	Mas ainda nem terminamos o drinque  ele insistiu, tapando o fone.
	Est bem  Jade concordou, pegando o clice e aproximando-se de Matthew. Sentando-se no cho, avivou o fogo da lareira. Enquanto acariciava os cabelos do menino adormecido, sorvia aos poucos o brandy, que aquecia-lhe a garganta de maneira suave e agradvel.
Uma onda de ternura a invadiu. De sbito, sentiu vontade de tomar Matthew nos braos e embal-lo docemente.
Mas, se o pegasse no colo, acabaria por acord-lo. Assim, ela continuou a acarici-lo, enquanto cantarolava um acalanto muito conhecido, da autoria de Brahms.
Boa noite, meu bem 
Dorme um sono tranquilo
Boa noite, meu amor
Meu filhinho encantador
Que uma santa viso
Venha a mente encantar
E que doce cano
Venha o sono embalar...
Louis, que falava ao telefone, de repente elevou a voz, fazendo com que Jade se sobressaltasse.
	Mas por que voc no me avisou antes? Sim, desculpe, claro... As linhas estavam cortadas, por isso voc no teve como... Hein?  Louis parecia cada vez mais exasperado.  Mas, escute, eu a contratei para solucionar o caso! E agora voc me diz que no conseguiu cancelar a audincia e que devemos comparecer ao tribunal depois de amanh?! Mas isso  loucura, Kelly!
Embora quisesse manter-se numa posio discreta, Jade no pde deixar de ouvir as palavras de Louis.
	Matthew no merece isso!  ele continuava a protestar, visivelmente descontrolado.  Ser que os Turner no compreendem que...  Interrompendo-se, ficou em silncio por alguns instantes. Depois, sua voz soou mais branda.  Certo... Est bem. Claro que no adianta nada perder o controle. A chave  resistir... Sim, lgico. S que h um problema: estou na casa de meu pai, em Paradise Lake, no Estado do Oregon. Oh, claro que voc sabe que estou aqui, caso contrrio no teria telefonado. Desculpe, Kelly... Bem, ento voc deve ter ouvido falar sobre a nevasca que vem assolando essa regio, desde ontem  tarde. Como? Sim, ouvi o boletim meteorolgico. Parece que amanh cedo o clima deve comear a melhorar Mas ainda que isso acontea, levar algum tempo at que as estradas fiquem novamente transitveis... Talvez  noite, j estejam em condies.
Jade continuava cantarolando baixinho, mas agora j no conseguia desligar-se do que Louis falava.
As palavras audincia e tribunal no deixavam dvida: Louis estava seriamente envolvido em alguma questo judicial. Mas o que seria?
	O qu?  ele voltava a elevar a voz.  Mas que absurdo  esse? De onde os Turner tiraram essa ideia maluca? Ora, no me pergunte, Kelly. A advogada  voc e no eu. Tente ver o que consegue, para...
	Psiu!  Jade o repreendeu, levando a mo aos lbios, num pedido de silncio.  Desse jeito voc vai acordar Matthew.
Louis assentiu com um gesto de cabea e, baixando o tom de voz, continuou:
	S no entendo por que voc no conseguiu provar ao juiz que...  Ele tornou a interromper-se.  Hein? Mas ento, o que voc sugere que eu faa? No posso fabricar uma governanta competente como a sra. Jenniffer Stone, do dia para a noite.  Aps uma pausa, exclamou com amarga ironia:  Naturalmente, isso significa mais um ponto contra mim... E eu tenho de aceitar tudo de cabea baixa! Como? Ora, se voc tem um palpite, diga logo qual ...  Mais alguns instantes se passaram. E por fim Louis afirmou:  Kelly, eu no acredito... Simplesmente no acredito na proposta que acabo de ouvir. Como? A lei me daria razo se eu fizesse isso? Ento a lei est maluca, tambm!  ele quase gritou.
Desistindo de pedir silncio, Jade tomou o pequeno Matthew nos braos e levou-o at a sute de hspedes. Quando voltou  sala, encontrou Jade sentado no cho, em frente  lareira, os olhos azuis fixos nas chamas que se extinguiam, transformando-se em brasas prpuras e alaranjadas.
	Levei Matthew para a cama, antes que voc o acordasse  ela anunciou, sentando-se a seu lado. Agora no tinha dvidas de que Louis estava passando por um srio problema. Era at capaz de deixar seus temores de lado, para ajud-lo.
Talvez fosse muito mais sensato ir para o quarto dormir, em vez de confortar Louis. Mas no conseguiria ficar em paz com sua conscincia.
	Quer falar sobre o assunto?  indagou, afastando os clices vazios para o lado.
	Que tal mais um brandy?  ele props, sem sequer voltar o rosto.
	Vamos deixar para depois  Jade sugeriu, num tom suave. Aps um longo momento, acrescentou:  Se precisar de um ombro amigo, pode desabafar. Mas se preferir ficar sozinho, eu compreenderei.
Louis no respondeu. Interpretando-lhe o silncio como um claro sinal de rejeio, Jade levantou-se.
"Eu bem que tentei", ela pensava, penalizada, caminhando em direo s escadas que conduziam ao segundo pavimento do chal.
	Jade...  Louis chamou-a.
	Sim?  ela voltou a se aproximar.
	Estou num beco sem sada.
	Isso deu para perceber  ela tentou gracejar, sentando-se a seu lado.  H algo que eu possa fazer, para ajud-lo?
	Receio que no  Louis respondeu, desolado.
	Sempre foi assim  ela comentou, com tristeza.  Voc jamais precisou de minha ajuda, lembra-se?  Imediatamente, arrependeu-se do que havia dito. Que erro grave relembrar o passado, justo naquele momento, quando Louis estava to frgil.  Oh, desculpe... Que idiotice, a minha, falar do que j ficou para trs  afirmou, constrangida.
Louis a fitava com uma expresso severa.
	No  verdade que eu nunca precisei de voc... De onde tirou esse ideia?
	Ora, esquea o que eu disse, sim?  Jade desviou o rosto. Mas acrescentou: Voc sempre foi to seguro e auto-suficiente...
Louis suspirou. Ento era essa a imagem que Jade tinha a seu respeito? De um homem que no precisava de ajuda...?
	Quem me dera!  ele disse, como se para si.
	Como?  ela indagou, sem entender.
	Todas as pessoas, por mais fortes e auto-suficientes que sejam, sempre precisam das outras, durante os momentos difceis.
	Como agora, por exemplo?  Jade indagou, fitando-o no fundo dos olhos.
Louis concordou com um gesto de cabea:
Sim.
Um silncio denso e pesado caiu entre ambos. Jade foi a primeira a falar:
	Qual  o problema, Louis?
	Matthew  ele respondeu, simplesmente.  Ou melhor: o risco dele ser tirado de mim.
	Como?  Jade espantou-se.  Mas voc no tem a tutela legal do menino?
	Sim.
	Ento, como  que...
	Brbara Turner, irm de Nina, e seu marido, Alex Turner, esto contestando judicialmente a tutela.
	Ora, eu no sabia que Matthew tinha outros parentes.
	E no tem...  Louis sentenciou, revoltado.
	No entendi. Essa tal Brbara e o marido no so tios de Matthew?
	Exato. E resolveram entrar com uma ao para me tirar a custdia.
	Sob que alegao?
	O argumento dos Turner baseia-se em dois pontos. O primeiro  que trabalho fora durante o dia inteiro e que no tenho tempo para cuidar do garoto...
	Mas suponho que voc o deixe aos cuidados de outra pessoa, enquanto trabalha  Jade apartou.  Certo?
	At pouco tempo atrs, uma governanta bondosa e competente cuidava dele. Mas infelizmente ela partiu e at agora no consegui encontrar ningum  altura.
	Ser que os Turner sabem disso?
	 provvel que sim  Louis respondeu, com uma expresso de desalento.
	E onde Matthew tem ficado, enquanto voc trabalha?
	No centro de convivncia infantil da emissora.  uma espcie de playground, onde as crianas podem brincar e se divertir, sob a superviso de algumas monitoras.
	E voc pretende manter essa rotina indefinidamente?
	Claro que no  Louis respondeu, com veemncia.  Vou contratar uma governanta o mais depressa possvel, para que Matthew possa ficar em casa. Claro que ele frequentar o centro de convivncia quando quiser, mas no por obrigao e sim por opo.
O que  bem diferente...  Jade comentou, pensativa
Bem, voc disse que o argumento dos Turner para a contestao da custdia baseava-se em dois pontos. Qual  o segundo?
	Eles alegam que Matthew est crescendo num ambiente inadequado a um garoto de sua idade.
	Como assim... inadequado?  Jade retrucou, franzindo a testa.  Ele  um menino feliz e tranquilo, qualquer pessoa pode comprovar isso. Basta olh-lo.
	Obrigado pela parte que me toca nesse elogio  Louis agradeceu, com um sorriso triste.  Mas no  isso que os Turner dizem, no processo de contestao.
	Eo qu, exatamente, eles alegam?
	Que podem oferecer a Matthew um ambiente familiar, um verdadeiro lar... j que so casados.
	Isso pode pesar muito, diante de um juiz  Jade comentou, preocupada.
	E acrescido do fato de que eles so parentes de Matthew...
	Louis engoliu em seco e concluiu:  E possvel que venam.
	Oh, no  Jade murmurou, estremecendo.  Isso no pode acontecer!
	De uma certa forma, j comeou a acontecer. O fato do juiz ter aceito a contestao dos Turner,  muito significativo.
	Ser?  Jade argumentou, com ar de dvida.
	Pode apostar que sim. Minha prpria advogada acha que isso representa um ponto a favor dos Turner.
	Oh, Deus!  Jade encolheu-se diante daquela triste revelao.
	Sabe o que mais me revolta?  Louis desabafou.  E que os Turner nunca se incomodaram com Matthew. Lembro-me de t-los conhecido durante o funeral de Nina e Philip. Dei-lhes meu telefone e endereo, convidei-os a visitar-me... Confesso que no fiz isso exatamente por mim, ou pelos Turner... Mas por Matthew. E eles nunca sequer telefonaram para saber como Matthew estava, se precisava de algo, se havia se adaptado bem  nova vida.
	Diga isso ao juiz  Jade aconselhou, com veemncia. Conte-lhe que os Turner jamais ligaram a mnima para Matthew. Aposto que ele levar esse fato em considerao. E dar a vitria a voc.
	Depende  Louis ponderou, com uma expresso amarga.
	Depende do qu?
Ele meneou a cabea:
	As coisas no so to simples assim. Os juizes so humanos e podem errar. J ouvi muitas histrias tristes, sobre casos de custdia.
	Mas aposto que o final de sua histria com Matthew ser feliz  Jade afirmou, com ardor.
	Tomara...
	Mas, diga-me, se os Turner nunca se importaram com Matthew, por que resolveram assumir sua tutela?
	Dinheiro  Louis resumiu.
	Como?
	Dinheiro  Louis repetiu.  Este  o nico motivo pelo qual esto empenhados em tomar-me a custdia de Matthew.
	No entendi.
	De algum modo os Turner descobriram que Nina e Philip deixaram uma vultuosa soma em dinheiro para Matthew.
Jade assentiu, com ar pensativo. Por fim argumentou:
	Olhe, eu no entendo muito de leis, mas pelo que sei esse dinheiro deve estar guardado num banco... E l ficar at que Matthew o retire, quando atingir a maioridade.
	Exatamente. Mas o tutor tem o direito de mexer no dinheiro, caso consiga provar, judicialmente, que s o faz em interesse do tutelado.  Louis ficou em silncio, com uma expresso indignada nos olhos azuis. Por fim concluiu:  Tenho certeza de que os Turner no hesitariam em dilapidar o patrimnio do menino, to logo se vissem de posse de sua custdia.
	E suponho que fariam isso apenas em funo dos prprios interesses, sem pensar em Matthew  Jade deduziu.
	Acertou em cheio.
	Oh, Louis!  ela exclamou, angustiada.  Ns temos de contar isso ao juiz. Temos de explicar-lhe que os Turner no amam Matthew de verdade e...
	Temos?  Louis repetiu, com um sorriso.  Voc parece estar comprando essa briga, Jade Adams.
	E de fato estou  ela respondeu, sem pestanejar.  Em outras palavras, pode contar comigo para o que der e vier. Farei tudo o que estiver ao meu alcance, para que voc e Matthew continuem juntos.
	Obrigado.  Louis pressionou-lhe a mo, num gesto de gratido e ternura.  Muito obrigado.
	Ora...  Jade reagiu, lisonjeada.  Eu ainda no fiz nada.
	Voc acaba de me apoiar num momento difcil, dando-me um novo nimo. Acha que isso  pouco?
Jade no respondeu. Apenas o olhou longamente, com o corao descompassado. Por um instante, julgou que Louis fosse beij-la. Mas ele apenas sorriu e levantou-se em seguida:
	Acho que vou me recolher. Boa noite, Jade.
	Boa noite  ela respondeu, com uma ponta de decepo. Teria gostado de ficar mais um pouco na companhia de Louis, diante da lareira... No precisariam dizer ou fazer nada. Bastaria estarem juntos, lado a lado, apoiando-se em silncio.
Jade avivou o fogo e ficou contemplando as chamas, tentando acalmar os pensamentos. No queria recordar ou refletir sobre nada. S desejava ficar ali, em paz, no silncio da noite.
Louis entrou na sute de hspedes e contemplou Matthew, que dormia serenamente.
	Acho que ganhamos uma aliada  disse, baixinho.  Jade est do nosso lado.
Na verdade, Louis bem que desejaria que Jade estivesse literalmente a seu lado, pelo resto da vida. O modo com que ela o havia fitado h pouco, diante da lareira, quase o fizera perder o controle. Por um triz Louis no a tinha tomado nos braos para um longo beijo.
Mas sabia que no possua esse direito. J magoara Jade uma vez, embora no houvesse feito isso de propsito. Na verdade, agira por amor... Amor a Jade Adams, que tinha aberto mo de sua personalidade para orbitar em torno dele, como um satlite ao redor de um astro. E isso Louis jamais aceitaria, ainda que se tratasse da mulher que tanto amava... E que amaria para sempre.
Na sala, as chamas iam novamente arrefecendo para se transformar em brasas... Que depois virariam cinzas. Jade comeava a sentir sono, embora estivesse gostando de ficar ali, contemplando o fogo.
O telefone tocou, sobressaltando-a.
Quem seria, quela hora? Ela se perguntou, apressando-se a atender. Na casa silenciosa, a campainha do telefone parecia excessivamente barulhenta.
 Alo?
	Por favor, o sr. Louis Mathieson?
	Ele j se recolheu  Jade informou, reconhecendo a mesma voz feminina que ligara h pouco mais de uma hora.  Quer deixar algum recado?
	Quem est falando, por favor?
	Aqui  Jade Adams.
	Srta. Adams, meu nome  Kelly Moore. Sou a advogada de Louis Mathieson e preciso conversar com ele. E urgente.
	Mas Louis j deve estar dormindo, dra. Moore  Jade replicou, preocupada.   to importante assim?  A advogada no respondeu de imediato. S o fez aps alguns instantes, que a Jade pareceram uma longa eternidade.
	Bem, srta. Adams, tenho um recado para Louis Mathie son. Ser que poderia transmiti-lo.
	Claro  Jade respondeu, tensa.   sobre a audincia, no?
	A senhorita est a par do caso?
	Sim. E pode me chamar simplesmente de Jade.
	Certo... Jade. A questo  a seguinte: acabo de voltar de um coquetel na associao dos advogados. Fui at l para dar um abrao numa colega que est comemorando seu aniversrio. E adivinhe quem encontrei?
	Nem imagino, dra. Moore.
	Esquea as formalidades e chame-me de Kelly.
	Est bem... Kelly.  Jade sentia-se tomada por uma ansiedade crescente.  E quem voc encontrou?  Bernard Lester, o advogado dos Turner.
	Oh!  Jade assentiu, com uma exclamao sufocada.  E ento?
	Acabamos falando sobre o caso e ele me deu um conselho... O mesmo que passei a Louis, hoje  noite.
	Qual?
	Se ele quiser ter alguma chance de enfrentar os Turner em p de igualdade, no tribunal, dever...  a dra. Kelly Moore interrompeu-se. Mas por fim disse de um s flego:  Dever arranjar uma esposa.
	O qu?  Jade quase gritou.
	O juiz no dar a custdia de Matthew a um homem solteiro, que passa o dia fora de casa... E que ainda por cima no tem nenhum lao de sangue com o menino  a advogada sentenciou. Num tom irnico, finalizou:  Em contrapartida, ficar comovido com o interesse dos Turner, que so casados legalmente e parecem ansiosos para cuidar do sobrinho.
	Acontece que eles no esto interessados em Matthew e sim em sua herana!  Jade exclamou, indignada.
	Ora, querida...  a dra. Kelly Moore assumiu um tom complacente.  Voc acha que o dr. Bernard Lester no os est instruindo devidamente, para bancarem os tios carinhosos e preocupados com o futuro do sobrinho?
	Mas ns sabemos que isso  mentira.
	Claro, mas eles tm muitos pontos a seu favor. Querem ganhar a causa... E acabaro conseguindo, a menos que Louis arranje uma esposa at depois de amanh. Assim, estar em p de igualdade para comear a briga. Entende o que quero dizer?
	Sim  Jade respondeu, desolada.
	Eu j o aconselhei a fazer isso, mas Louis reagiu muito mal.
	O que  perfeitamente compreensvel  Jade opinou, com amarga ironia.  Afinal, uma esposa no  algo que se encontre para comprar num shopping ou nas boas casas do ramo...
A advogada riu:
	Voc possui um timo senso de humor.
	No sei como, j que neste momento no tenho o menor motivo para rir. Bem, eu darei seu recado a Louis.
	Certo. E se ele ficar muito furioso com o conselho, pea-lhe para me ligar amanh cedo.
	Est bem.
	Muito obrigada pela ateno, Jade. Tenha uma boa noite.
	O mesmo para voc, Kelly.  Jade desligou e voltou para perto da lareira. Estava inquieta demais para sentar-se e por um longo momento ficou em p, as mos cruzadas nas costas, a mente trabalhando rpido.
Na sute de hspedes, Louis j havia adormecido. Momentaneamente livre dos problemas que tanto o atormentavam, gozava aquele momento de descanso, refazendo as foras. Precisaria muito delas, nos prximos dias.
Ele no ouviu quando Jade bateu  porta, nem tampouco quando ela entrou, depois de experimentar a maaneta. S acordou quando Jade o chamou seguidas vezes, tocando-lhe o ombro.
Abrindo os olhos, Louis a princpio pensou que estivesse sonhando. A imagem de Jade, sentada na beira da cama, fitando-a com aqueles olhos que mais lembravam esmeraldas preciosas... Era demais. Piscando, Louis sorriu:
	 mesmo voc, ou estou diante de uma apario?
	Sou eu  ela respondeu, num tom srio.
	Aconteceu alguma coisa?  Louis indagou, preocupado.  Matthew est bem?  Mas era desnecessrio perguntar, pois o menino dormia como um anjo, na cama ao lado.
	Precisamos conversar  Jade afirmou, num tom surpreendentemente calmo.
Ele sentou-se na cama e recostou-se no travesseiro. Passando a mo pelos cabelos negros, comentou:
	Suponho que se trate de algo urgente.
	Sim.
	Ento, fale de uma vez.
Jade tomou flego e, fitando-o nos olhos, anunciou:
Acho que vou me casar com voc, Louis Mathieson.

CAPITULO VII

Durante vrios minutos, Louis no sabia o que dizer ou pensar. Acordar com Jade sentada  beira da cama, declarando que queria casar-se com ele... Era absolutamente espantoso. Nem mesmo em seus sonhos mais loucos ele seria capaz de imaginar uma cena daquelas.
	Ser que ouvi bem?  perguntou, por fim, com total perplexidade.  Voc disse que...
	Estou disposta a me casar com voc... por matthew.
	Como?
	Sua advogada acabou de telefonar.
	De novo?  Louis agora estava totalmente desperto. Mas para dizer o qu?
	Que voc precisa de uma esposa... com urgncia.
	Oh, ela j me deu esse conselho absurdo, mas eu naturalmente no...
	Ligou a mnima  Jade completou.
	Como sabe disso?
	Ela me contou.  Em poucas palavras, Jade resumiu a conversa que havia tido com a advogada. Por fim acrescentou:

	Kelly parecia saber muito bem o que estava falando. Quanto a mim, ainda h pouco declarei que estava disposta a qualquer coisa para ajud-lo, nesse caso. E agora cumpro minha palavra.
	Ela fez uma pausa, antes de concluir:  Voc precisa de uma esposa, para depois de amanh  tarde. Estou me oferecendo para o cargo. Aceite, antes que eu me arrependa dessa loucura.
Louis continuava atnito. Mas aos poucos sua expresso foi se transformando em gratido... e depois em ternura.
	Agradeo imensamente sua disposio de nos ajudar.  E lanou um olhar a Matthew, que dormia.  Mas voc tem conscincia da situao em que est se envolvendo?
	Acha que sou tola?  ela reagiu, aborrecida.  Sei muito bem o que estou fazendo. E sei tambm que seria uma judiao separar voc e Matthew.
Louis estava comovido:
	Eu... No sei o que dizer.
	Ento, no diga nada. Apenas pense numa forma de estarmos casados, depois de amanh  tarde.
	Sei de um lugar onde podemos resolver esse problema.
	Otimo. Quando partiremos?
	Amanh ser impossvel, pois as estradas ainda estaro intransitveis. Mas creio que se sairmos no dia seguinte, bem cedo, conseguiremos nos casar e chegar a tempo para a audincia. 
	Certo.  Jade levantou-se.  Ento, boa noite, Louis. Desculpe t-lo acordado mas, como voc viu, o assunto era urgente  disse, j a caminho da porta.
	Ei...  ele chamou-a.
	Sim?
Louis sorriu, com ar maroto:
	No  desse jeito que os noivos se despedem...
Jade cruzou os braos e sua voz soou firme, ao dizer:
	Creio que no preciso explicar que nosso casamento ser apenas pr-forma.
	Entendo  Louis assentiu, assumindo uma expresso sria.  Obrigado, Jade. Essa palavra parece-me insuficiente para agradec-la, mas  s o que posso dizer, ao menos por enquanto.
	Por nada.
Jade j ia saindo, quando ele comentou:
	Voc mudou muito.
	Para melhor, eu espero.
	Oh, sim!  Ele a fitava com evidente admirao.  Voc est mais ativa, mais segura de si. Quem a v, no diz que  a mesma garota dependente e tmida de antes.
	A gente aprende a vencer as limitaes... Ou ao menos a conviver com elas. Bem, tenha uma boa noite.  Jade saiu, fechando a porta. Apoiando-se  parede do corredor, suspirou profundamente. No era  toa que Louis estava surpreso com sua aparente independncia.
"No mais surpreso do que eu", pensou.
De fato, nem ela mesma acreditava na atitude que havia acabado de tomar. Tinha se oferecido para casar-se com Louis? Era isso? E pensar que algumas horas antes seria capaz de enfrentar uma nevasca, s para sair de perto daquele homem.
O que a fizera mudar de atitude to rpido?
A resposta era simples: ela no suportava assistir, de braos cruzados, a uma situao injusta. Mas agora seu senso de justia e solidariedade fora longe demais.
Enquanto voltava para sua sute, Jade tentava convencer-se de que a situao no era to grave assim. Afinal, seu casamento com Louis s aconteceria no papel. Tratava-se apenas de um libi, para que Louis continuasse como tutor do pequeno Matthew. Depois, ela retornaria a Portland e assumiria sua rotina normal de vida. Portanto, no havia com que se preocupar... Exceto como fascnio que Louis Mathieson continuava lhe despertando. Mas isso j vinha acontecendo, independente de sua deciso de casar-se com ele.
	Chega de pensar nesse assunto, Jade Adams  ela se ordenou, atirando-se na cama. Afinal, sua vida no girava em torno de Louis ou de Matthew...
De repente, sem que Jade pudesse impedir, uma lembrana veio se instalar em sua mente, com uma nitidez cruel. E ela reviveu a noite de vero em que Louis lhe propusera casamento, h um ano e trs meses. Lembrava-se da felicidade que a invadira, do castelo de sonhos que construra... Imaginava-se em casa, cuidando de Louis e dos filhos que viriam, dedicando-se de corpo e alma  famlia e ao bem-estar dos entes queridos.
Mas o castelo viera abaixo. O romance rompido, o beb que nem chegara a nascer, a certeza de que nunca mais seria feliz... Tudo isso Jade tivera de suportar, lutando para no enlouquecer e nem desistir da vida.
Era estranhamente irnico que agora ela se dispusesse a desposar Louis, para que ele pudesse manter a custdia de um menino.
	A vida tem caminhos incompreensveis  ela pensou, em voz alta, fechando os olhos com fora para afastar as lembranas. Precisava descansar, pois os prximos dias seriam bastante agitados... Para se dizer o mnimo.
A madrugada j ia alta e Louis no conseguia conciliar o sono. Caminhando de um lado a outro do quarto, ele tentava acalmar os pensamentos. Mas s conseguia ficar mais agitado a cada segundo.
A atitude de Jade no apenas o deixava perplexo, como comovido. Mas no era bem isso que desejava daquela mulher... Ser que ambos ainda teriam tempo de serem felizes? Haveria uma mnima chance?
Se houvesse, Louis estava disposto a segur-la, com toda a fora do seu corao.
 Como voc amadureceu, minha menina...  ele disse, baixinho.
Minha menina. Era assim que a chamava, nos tempos de namoro. E, de fato, Jade portava-se como uma menina... O que no cabia a uma garota de vinte e dois anos.
Quando a pedira em casamento, um ms aps o namoro, numa noite de vero, Louis acreditara estar a caminho da felicidade.
Mas deveria ter previsto que Jade no estava preparada para uma vida a dois. Afinal, ela era muito jovem, ao passo que ele j estava entrando na maturidade, aos trinta e um anos.
Jade ainda pensava, ento, que amar uma pessoa era abrir mo de si mesma... Assim, ela fora aos poucos perdendo seu encanto, sua individualidade. Tornara-se dependente e sem vontade prpria.
	Minha felicidade  viver em funo de voc  ela costumava dizer. Mas Louis sabia que abdicar da prpria personalidade, ainda que em nome do amor, no levaria a nada. Por quantas vezes tentara dizer isso a Jade!
Quando ela decidira abandonar a faculdade para segui-lo na turn pela Europa, Louis fizera de tudo para dissuadi-la:
 Voc no pode deixar os estudos, Jade.
 Pois  exatamente isso que farei  ela afirmara, num tom que no admitia rplicas.
 Mas no posso aceitar que voc sacrifique seu futuro e sua carreira, apenas para ficar perto de mim  ele argumentara.  Prometo que virei v-la nos fins de semana, ou sempre que tiver uma folga. E que escreverei com frequncia.
	Eu o conheo muito bem, Louis Mathieson...  ela sorrira, exibindo os dentes brancos como prolas.  Voc  fantico pelo trabalho e jamais deixar de cumprir seus compromissos profissionais, para me ver.
	Escute, fui escalado para fazer uma reportagem especial  Louis dissera, com infinita pacincia.  Mas isso no vai levar tanto tempo assim. Daqui a pouco tempo j estarei de volta.
	Acha que conseguirei viver sequer um dia sem voc?  Jade retrucara, abraando-o com fora.  Eu o acompanharei aonde quer que v, meu amor.
	Mas eu nem sequer terei tempo para voc, querida. Entrarei num ritmo agitado, viajando de cidade em cidade, de hotel em hotel, com os dias inteiros ocupados.
	No faz mal. Eu estarei esperando voc de braos abertos...
Mas no fora bem assim que tudo acontecera.
A princpio, Jade realmente o esperava, recebendo-o com todo o amor de seu corao. Gostava de ouvi-lo falar sobre o trabalho, dava opinies, era amiga, companheira e uma amante como Louis jamais conhecera.
Mas o desgaste, muito natural, no tardara a vir.
Louis continuava trabalhando num ritmo alucinante e, quando chegava ao hotel, sentia-se exausto. No tinha disposio para conversar, s queria dormir umas poucas horas, antes de retomar o trabalho.
Jade, por sua vez, tinha todo o tempo livre. Em vez de conhecer a cidade, ou procurar fazer amizade com os outros hspedes, fechava-se no quarto.  noite, j estava irritada, desgastada, cheia de cobranas para fazer. Queria saber aonde Louis tinha ido, com quem falara, por que demorara tanto...
A garota encantadora e interessante transformara-se numa menina grande, mimada, irritadia, ansiosa.
Louis julgara que aquela fase passaria, to logo ambos regressassem a Nova Orleans. Talvez Jade apenas estivesse ressentida pelo ritmo agitado em que viviam. Ao menos, ele queria pensar assim.
Mas o retorno a Nova Orleans no mudara muito a situao. Ao contrrio: Jade tornara-se ainda mais angustiada, mais exigente. J nem sequer se cuidava. Atrapalhava-se nos preparativos para o casamento, ficava mais tensa a cada dia que passava. E ele decidira que aquilo no podia continuar.
Depois de refletir muito, chamara Jade para uma conversa sria. Da maneira mais delicada possvel, sugerira que seria melhor adiar a data do casamento... Pois no se sentia preparado para assumir uma vida a dois, ao menos por enquanto.
Com isso, Louis pretendia interromper o processo de angstia pelo qual Jade estava passando. Queria tambm convenc-la a retomar os estudos e reassumir sua individualidade. Depois, quando Jade fosse de novo dona de si mesma, ele no hesitaria em despos-la.
Mas tudo ocorrera de um modo bem diferente.
Na mesma noite, Jade partira. O porteiro do prdio informara-o de que ela pegara um txi para o aeroporto.
Desesperado, Louis correra  garagem e, pegando o carro, partira no encalo de Jade. Para aliviar a tenso, ligara o rdio. E ento ouvira a notcia do desastre areo, no qual Nina e Philip haviam falecido.
Trmulo, quase em estado de choque, ele voltara para casa. Sabia que no teria condies de chegar ao aeroporto. Mas esperava que Jade tambm retornasse, ao saber da tragdia. Mas Jade no mais dera notcias. E assim os caminhos de ambos se descruzaram.
Louis sofrera muito, nos meses seguintes. Perdera, de uma s vez, os melhores amigos e a mulher que tanto amava. Entretanto, em meio  dor, guardara uma certeza: a de que era prefervel que Jade partisse, para ser dona de si mesma... A continuar como a garota submissa e dependente que se tornara. Amava-a demais para permitir que ela se escravizasse em funo de sua felicidade.
E embora jamais a esquecesse, embora morresse de saudade dos momentos maravilhosos que haviam passado juntos, Louis ficara feliz ao saber que Jade comeara a trabalhar para uma revista importante, revelando-se uma tima redatora.  distncia, ele acompanhava-lhe a carreira, marcada por bons momentos de triunfo. Por vezes, sonhava com a possibilidade de t-la novamente. Mas no se sentia no direito de tentar uma aproximao. Afinal, j a magoara uma vez, embora o tivesse feito apenas por amor.
Louis meneou a cabea, afastando aquelas tristes lembranas. Fosse como fosse, tudo aquilo j ficara para trs. O momento agora era outro. O futuro ainda poderia ser cheio de promessas de felicidade. E ele no pouparia esforos para reconquistar Jade. Agora, que ela era dona de si mesma, talvez pudesse ser... sua!
	Tomara  ele suspirou, voltando a deitar-se. Talvez agora conseguisse conciliar o sono.  Tomara que no nos percamos um do outro desta vez, Jade Adams.
Apesar de ter dormido muito tarde, Jade acordou cedo na manh seguinte. A casa estava totalmente silenciosa, o que significava que Louis e Matthew continuavam dormindo. A caminho da cozinha, Jade ouviu o telefone tocar.
	Al  ela atendeu, esperando que no fosse a dra. Kelly Moore, com ms notcias.
	Jade!  exclamou uma voz masculina, do outro lado da linha.  Ento era a que voc estava se escondendo?
	Hank!  Ela reconheceu a voz, de imediato.
	Ah, que alvio falar com voc. Eu j estava ficando se riamente preocupado.
	Voc?  ela retrucou, fingindo-se zangada.  Pois saiba que, se algum aqui tem o direito de preocupar-se, esse algum sou eu.
	Ora essa, mas por qu?  Porque liguei para voc trs dias seguidos e no consegui encontr-lo. Depois, telefonei para o pessoal das propriedades vizinhas, mas ningum o tinha visto, nessa semana. Da fiquei apavorada e...
	Oh, minha querida  Hank a interrompeu, comovido.  No me diga que voc foi at a, naquele seu velho calhambeque, embaixo de uma nevasca terrvel, apenas para verificar se eu estava bem...?
	Que histria  essa de velho calhambeque?  Jade protestou, contendo o riso.  Meu carro est em perfeito estado.
	Ah, claro, posso imaginar  Hank ironizou, divertido.
	Pois saiba que ele passou por uma reviso h menos de um ms!
	E aposto que voc se esqueceu de colocar pneus prprios para andar na neve... Acertei?  Bem, isso no  realmente importante...
	Como no?
Ignorando o aparte, ela prosseguiu, num tom exageradamente dramtico:
	Alm do mais, se voc no houvesse resolvido desaparecer sem me avisar, eu no precisaria ter vindo aqui, arriscando a vida sob uma tempestade.
	Quem disse que eu desapareci?  Hank contraps.  Alis, eu s planejava fazer-lhe uma surpresa. Liguei para seu apartamento logo pela manh e deixei um recado na secretria eletrnica, informando-a sobre o nome do hotel onde estou hospedado.
	Mas eu j tinha sado para ir  redao da Everywoman Jade explicou, referindo-se  revista para a qual trabalhava.
	Passei a manh inteira em reunio com Vernica Chapman, para resolver alguns assuntos.

	Foi isso que me informaram, quando liguei para l. Mas voc j havia...
	Sado s pressas para vir para c  Jade completou.  Que desencontro, Hank.
	Pois .  Ele fez uma pausa.  Suponho que tenha se encontrado com Louis e Matthew...
	Sim  Jade respondeu, justamente quando Louis entrava na sala.  A propsito, ele est aqui.
	 Kelly?  Louis indagou.
	Seu pai.  Jade despediu-se de Hank e passou o telefone a Louis. Em seguida foi para a cozinha, preparar o desjejum.
A nevasca havia cessado. Mas a neve ainda cobria a paisagem, com seu manto gelado.
Enquanto arrumava a mesa, Jade ouvia a movimentao dos trabalhadores da prefeitura e das mquinas que comeavam a abrir caminho entre a neve, para permitir o trnsito nas estradas.
O cu parecia menos carregado. O clima ia melhorar.
Jade j estava passando o caf, quando Louis entrou na cozinha.
	Matthew ainda est dormindo?  ela perguntou.
	Sim.
Havia certa tenso entre ambos. E Louis tentou amain-la:
	Meu pai lhe falou sobre sua ideia de aposentar-se o mais depressa possvel?
Jade assentiu com um gesto de cabea, sentando-se  mesa. Louis serviu-se de uma xcara de caf e retomou o assunto:
	Contou-lhe tambm sobre uma proposta que ele me fez, no ms passado?
	J faz um ano que seu pai e eu temos uma espcie de acordo tcito  ela declarou, evitando-lhe os olhos.  Ns no falamos sobre voc. E parece que vocs dois mantm o mesmo arranjo, ou seja: no tocam no meu nome. Assim, todos vamos vivendo, j que no se pode fazer outra coisa.
Louis sentiu a amargura e revolta ocultas naquelas palavras. E continuou:
	Meu pai me props a direo do jornal em Portland. Disse que j trabalhou muito e precisa descansar. Quer manter apenas um pequeno negcio, para que a mudana de ritmo no seja muito brusca. Afinal, ele trabalha h muitos anos e se parar assim, de repente...
	Compreendo  Jade apartou, servindo-se de um copo de suco de laranja.
	Pensei em aceitar o trabalho  Louis afirmou.
	E deixar a emissora de tev em Nova Orleans?  Jade surpreendeu-se.
	Bem, eu poderia continuar como reprter correspondente. O trabalho seria menos intenso, o que me daria tempo para dirigir o jornal. Assim, eu me mudaria para essa regio e ficaria mais perto de meu pai.  Louis fez uma pausa.  O velho Hank Mathieson ainda tem muito vigor. Mas no se pode ignorar que est mais velho, precisando de carinho, companhia... Essas coisas impalpveis que, no fim das contas, so as mais preciosas da vida.
	Pensei que voc no ligasse para essas coisas... impalpveis, como voc mesmo diz. Achei que sua carreira profissional fosse seu nico objetivo na vida.
	Se fosse, eu no estaria lutando por Matthew  Louis defendeu-se.
	  Jade aquiesceu, num tom amargo.  Talvez Matthew tenha lhe ensinado o que outras pessoas no puderam...
	Por que est me tratando desse jeito?  Louis indagou, ofendido.  O que eu lhe fiz, de ontem para c, para provocar-lhe esse tipo de reao?
Jade fitou-o por um longo momento, com uma expresso infinitamente triste. Por fim, desculpou-se:
Oh, perdoe-me. Eu... Acho que acordei mal-humorada. Alm do mais dormi pouco e isso mexe com os nervos.
Na verdade, Jade conhecia muito bem o motivo de sua postura agressiva, que poderia resumir-se numa nica palavra: medo. Era isso... Estava com medo, no de Louis, mas de si mesma, ou melhor: de seus sentimentos por ele. Se no houvesse se comprometido a ajud-lo naquela situao terrvel, poderia ir embora dentro de algumas horas. Mas agora, que se dispusera a despos-lo, sua relao com Louis seria bem outra. E por mais que ela jurasse manter o corao fechado aos encantos daquele homem, no tinha certeza de que conseguiria cumprir a promessa.
	Desculpe  ela repetiu, constrangida.  No tenho direito de agredi-lo, como estou fazendo. Isso no se repetir.
Louis ia dizer algo, mas Matthew entrou correndo, aliviando aquele momento tenso com sua presena encantadora e inocente.
	Bom dia para vocs  disse, sorridente, sentando-se  mesa.  Estou faminto.
	Que bom.  Louis sorriu.  Jade fez um caf da manh maravilhoso, para ns.
	Oba!  Matthew mordiscou uma torrada, enquanto ela servia-lhe um copo de suco de laranjas.
	Precisamos contar algo a voc, Matthew  disse Louis, j no final da refeio. Lanando um olhar a Jade, como se lhe pedisse apoio, prosseguiu:  Trata-se de um assunto que interessa a ns trs.
Num tom suave, recorrendo a palavras simples, Louis falou de um modo claro sobre a audincia que deveria ocorrer na tarde seguinte, em San Francisco. Disse tambm que poderiam contar com a ajuda de Jade. E explicou que se casaria com ela, antes de ir ao tribunal.
	Quer dizer que voc vai ser minha mame, de hoje em diante?  Matthew indagou, com um sorriso de felicidade.  Puxa, mas isso  demais!
Louis apressou-se a esclarecer:
	Veja bem, Matthew: as pessoas pensam que voc e eu no vivemos bem, simplesmente porque no sou casado.
	Mas eu adoro a nossa vida, Louis  o menino afirmou, num tom muito srio, que comoveu o adultos.  Quantas vezes preciso dizer isso?
	Eu acredito em voc, parceiro.  Louis acariciou-lhe os cabelos.  Mas as pessoas no...
	Ento, eu contarei a elas.
	Acontece que ainda assim as pessoas continuaro pensando que  melhor voc viver numa casa onde haja um homem e uma mulher, que faam o papel de seu papai e sua mame. Sua tia Brbara e seu tio Alex, por exemplo, esto querendo que voc v morar com eles.
	Mas eu j disse que no quero ir!  o menino protestou, irritado.  Falei isso um milho de vezes para voc e para aquela moa meio lerda l de San Francisco... Como  mesmo o nome dela?
	Kelly  Louis respondeu, contendo um sorriso.  Dra. Kelly Moore.
	Isso.
	E por que aacha... meio lerda?  Jade interveio.
	Ah, porque ela no entende direito o que eu falo. Faz a mesma pergunta mil vezes... E fica sorrindo para mim, quando respondo. A, penso que ela entendeu. Mas que nada! Dali a pouco, est perguntando de novo.
Jade no conseguiu conter o riso, nem tampouco Louis, que explicou ao menino:
	Os advogados fazem a mesma pergunta muitas vezes, Matthew, para terem certeza de que seremos capazes de dar a mesma resposta, quando estivermos no tribunal.
	Mas no basta responder uma s vez? Eles acham que vamos mudar de ideia?
	No... S querem saber se vamos responder da mesma forma, diante do juiz.
O menino considerou a explicao por alguns instantes, mas no parecia satisfeito.
	No entendo. Olhe, Louis, se algum me perguntar se gosto de chocolate, por exemplo... Eu sempre vou dizer que sim, tanto faz se for na frente do juiz ou de outras pessoas.
	Voc  um anjo, querido.  Jade piscou-lhe um olho.
	E voc  bonita  o menino retrucou, imitando-a.  No acha, Louis?
	Oh, claro  Louis concordou, enquanto Jade enrubescia.  Bem, vamos continuar com a conversa?
Matthew assentiu com um gesto de cabea e olhou de um para o outro.
	Ns trs vamos ficar juntos, como uma famlia?  isso que devemos contar para o juiz, no tribunal?
Louis e Jade entreolharam-se. O momento mais difcil havia chegado. E Jade adiantou-se:
	Oua-me com bastante ateno, Matthew... Eu e Louis decidimos nos casar, no exatamente para morarmos juntos, mas
porque no queremos perder voc. S que voc e Louis moram l em Nova Orleans, enquanto que eu moro em Portland.
	Ns passamos em Portland  o menino comentou.  No foi, Louis?
	Sim. E voc falou que era uma cidade bonita.
	Era mesmo.
	Bem...  Jade continuou, escolhendo bem as palavras. 	Eu tenho meu trabalho e minha vida em Portland. Portanto, no poderei estar sempre com voc, em Nova Orleans.
	No faz mal  Matthew aquiesceu, sem maiores problemas.  s vezes Louis tambm viajava para trabalhar longe. E eu ficava com a sra. Jenniffer Stone. Mas agora ela foi embora. E da, quando Louis viajar...  ele interrompeu-se, com ar pensativo. Depois sorriu:  Ei! Eu ficarei com voc, Jade!
	Claro  ela no pde deixar de concordar.  Ento, voc entendeu: eu e Louis nos casaremos para...
	Vocs so um casal bonito  o menino a interrompeu. 	Mas minha tia Brbara e meu tio Alex so feios. E eu, que no sou bobo, quero ficar com vocs. Posso dizer isso ao juiz?
Entre divertidos e emocionados, os adultos acenaram afirmativamente. Matthew levantou-se:
	T bom. Agora posso assistir televiso, l no quarto? Vai passar A Guerra dos Botes, daqui a pouquinho. Parece que  uma histria bonita.
	 um lindo filme  Louis confirmou.  E seu diretor chama-se Truffaut.
	Que nome complicado  Matthew comentou, j de sada.
A tenso novamente caiu entre Jade e Louis, que acabou sendo o primeiro a quebrar o silncio.
	Acho que se eu disser obrigado a vida inteira, ainda no a terei agradecido devidamente.
 A felicidade de Matthew  tudo o que desejo, como retribuio.
	Jade...  Ele inclinou-se em sua direo, tomando-lhe a mo entre as suas.
	Por favor, no  ela retirou a mo num gesto delicado, mas firme. Mas aquele simples contato foi suficiente para que seu corao pulsasse acelerado, a ponto de atrapalhar-lhe a respirao.
	No posso nem ao menos fazer um gesto de carinho?  ele protestou, magoado.
	 melhor mantermos distncia  ela opinou, no tom mais firme que conseguiu.
	Por qu?  Louis indagou, fitando-a no fundo dos olhos.
	Porque  assim que deve ser.
	Jade...?
	Sim?
	Aprecio muito o que est fazendo por mim e Matthew, mas no quero que voc se sinta amargurada desse jeito, s para nos ajudar. Se for para v-la sofrer, prefiro cancelar nosso casamento e deix-la em paz.
Jade reagiu, surpresa. Teria ouvido bem, ou Louis estava se importando com seu bem-estar, antes do dele?
E como a adivinhar-lhe o pensamento, ele reafirmou:
	No quero que voc sacrifique sua vida, em funo da minha ou da de Matthew. Alis, se eu fosse o tipo de homem que aceitasse isso, ns no teramos...  Interrompeu-se bruscamente, como se de repente se desse conta de que havia falado demais.
	No teramos...?  ela repetiu, curiosa.
	Oh, nada.  Louis baixou os olhos. Mas ergueu-os em seguida, para fit-la com aquela intensidade que sempre a emocionava.  Sei que sua deciso de casar-se comigo foi movida por um sentimento de bondade. Mas veja quanto ela vai lhe custar. Se for muito, volte atrs. Pense bem, hoje, e d-me uma resposta  noite. Se achar que esse casamento de mentira  mais do que voc pode suportar, cancele-o. Ainda h tempo.
	Mas...
Jade tentou intervir, mas Louis continuou:
	De nada adianta fazer uma ao bondosa, se os sentimentos no a acompanharem. O gesto pouco significa, sem o auxlio do corao.  preciso que ao e sentimento caminhem juntos. Pense sobre isso, Jade. Consulte-se... E obedea ao que seu corao pedir. Pois ele  o maior mestre que guardamos em ns.  Virou-se e saiu da sala.
Jade suspirou, com os olhos rasos de lgrimas. Louis a havia surpreendido, mais uma vez. Ele tinha razo. Se fosse para ficar amargurada daquele modo, ento seria melhor cancelar o casamento.
O que mais emocionava Jade era o fato dele ter aberto mo de algo to importante, que talvez definisse sua vitria contra os Turner, apenas por preocupar-se com ela.
Os pensamentos acorriam  mente de Jade, numa velocidade estonteante. Por fim, ela chegou a uma concluso: j que havia se disposto a ajudar Louis, faria isso do melhor jeito possvel... Com firmeza e alegria.
A deciso causou-lhe um intenso bem-estar. Jade agora tinha certeza de que estava agindo corretamente.

CAPITULO VIII

Jade fechou o microcomputador e guardou-o na valise. Tinha acabado de enviar o artigo que escrevera no dia anterior para a revista Everywoman. Havia tambm avisado a editora de que se ausentaria por dois dias e que entraria em contato assim que retornasse a Portland.
Vestindo o conjunto com que havia chegado, levando na mo a valise, ela desceu as escadas para encontrar-se com Louis e Matthew, que j deviam estar a sua espera. De fato, ambos estavam prontos para partir.
	Qual ser o itinerrio?  ela perguntou.
	O motorista da equipe da prefeitura informou-me que a melhor opo  pegar a rodovia 62 para Medford.
	Ser que j est desimpedida?
	Sim  Louis respondeu.  Ele me disse que foi a primeira a ser limpa, ontem de manh, e que est em boas condies.
	Certo. E depois de Medford...?
	Tomaremos o vo das onze horas para Reno. De l embarcaremos em outro avio, para San Francisco, a uma hora.
	Por que decidiu parar em Reno?  Jade indagou, curiosa.
	Porque  l que vamos nos casar  Louis explicou.
	Pensei que faramos isso em San Francisco.
	Reno  melhor, para quem deseja um casamento s pressas. J liguei para l e marquei a cerimnia. Ser realizada numa capela prxima ao aeroporto.
Minutos depois, os trs seguiam para Medford, na confortvel e moderna caminhonete de Louis.
	Pedirei a meu pai que d um jeito de enviar seu carro para Portland  ele disse a Jade.  Assim, voc no ter de voltar aqui para peg-lo.
	Tenho certeza que Hank resolver esse assunto  ela comentou.  E, para ser franca, no estou preocupada com isso, agora.
	Estou apenas tentando facilitar as coisas para voc, j que lhe causei tantas -complicaes  disse Louis, com os olhos fixos na estrada.
Antes que Jade retrucasse, Matthew, que estava no banco de trs, perguntou:
	Quanto falta para chegarmos?
	At Medford?  Louis fitou-o pelo espelho retrovisor.  Cerca de duas horas.  Dirigindo-se a Jade, acrescentou:  Se tudo correr bem, voc poder retornar a Portland ainda hoje.
	Sem problemas  ela respondeu, com firmeza.  Voc mesmo falou, ontem, que uma ao no vale nada se no for acompanhada pelo corao. E eu estou inteira, neste movimento. Entende o que quero dizer?
	Sim  ele assentiu, com um largo sorriso.
Ligou o rdio, que naquele momento transmitia o noticirio da manh. O boletim meteorolgico informava que no havia previso de nevasca, para os prximos dias. E que o clima continuaria melhorando, no decorrer do perodo.
Aps o noticirio, comeou um programa de msica clssica. O compositor destacado naquele dia era Jean Sibelius, com a obra Romance, sob regncia do famoso maestro espanhol, Rinaldo Capistrano. Jade recostou-se no assento. Adorava aquele compositor e fechou os olhos para que a msica a envolvesse ainda mais.
A caminhonete deslizava suavemente pela rodovia, cujo movimento comeava a se intensificar. Um sol plido destacava-se no cu, prometendo firmar-se no decorrer do dia.
Jade suspirou profundamente. As plpebras comeavam a tornar-se pesadas... E mais pesadas... Uma suave languidez apossava-se de seu corpo, aps uma noite de poucas horas de sono.
	Ei, Jade, acorde. Ei... J chegamos.
Aquela voz grave e pausada s poderia pertencer a Louis. Disso ela j sabia, antes mesmo de abrir os olhos.
Acordar...?
Mas no queria despertar daquele sonho, sutil como a beleza da msica de Sibelius, que vinha dos auto-falantes. Um sonho no qual ela e Louis tinham acabado de se casar, numa capela do Reno... Agora ele a tomava nos braos para um longo beijo e dizia...
	Jade, j chegamos.
A voz de Louis soava mais urgente. E Jade abriu os olhos, deixando para trs o sonho dourado.
S ento deu-se conta de que estava dormindo no ombro de Louis. Endireitou-se no assento, afastou os cabelos do rosto e sorriu, constrangida:
	Oh, desculpe. Eu o estava atrapalhando, no?
	De jeito nenhum. S a chamei porque j chegamos em Medford.  Louis acabava de entrar no estacionamento do aeroporto.  Agora precisamos acordar Matthew.
	Deixe que eu faa isso.  Soltando o cinto de segurana, Jade ajoelhou-se no assento e chamou o menino num tom suave.
 Matthew, querido... Ei, anjinho,  hora de acordar.
	Vamos l, parceiro  Louis secundou, num tom ligeiramente mais alto.  Temos de embarcar daqui a pouco.
Aps muita insistncia, Matthew abriu os olhos:
	O que foi?
	J estamos em Medford  disse Louis.
O garoto esfregou os olhos e comentou:
	Puxa, foi rpido!
	O tempo sempre passa depressa, quando estamos dormindo.
	Por que ser, hein, Louis?
 Boa pergunta, parceiro. Mas acho que podemos discuti-la durante o vo.
	Combinado!
Mas Matthew parecia ter se esquecido da questo do tempo, ao embarcar. E no era para menos, pois a aeromoa encheu-o de jogos e quebra-cabeas, bem como de uma srie de guloseimas. Sendo a nica criana no vo, foi mimado devidamente. E surpreendeu a todos quando, pouco antes da aterrissagem, disse em alto e bom som:
	Louis, descobri outra coisa importante sobre o tempo.
	 mesmo? E o que foi que voc descobriu?
	Que ele passa rpido no s quando estamos dormindo, mas tambm quando estamos felizes.
A concluso, bastante sbia por sinal, despertou carinho e riso nos adultos.
Cerca de vinte minutos depois, o avio aterrissava no aeroporto de Reno. O cu estava nublado, mas no havia sinal de neve em parte alguma. E o clima era bem mais quente do que no Oregon.
Louis alugou uma reluzente mercedes preta, na agncia vizinha ao aeroporto. Em pouco tempo, os trs seguiam para a cidade.
	Voc no disse que a capela ficava aqui perto?  Jade indagou, depois de alguns minutos.
	J passamos por ela  disse Louis.  Voc no reparou?
	No  ela respondeu, confusa.  Mas, se j passamos, por que no faz o retorno para...
	 que antes quero ir ao centro comercial  Louis interrompeu-a.  Deve haver algum shopping ou butique, por l. 
	Para qu?
	Precisamos fazer algumas compras. Voc no pode casar-se usando essas roupas.
	O que h de errado com minhas roupas?  Jade retrucou. Ainda usava o conjunto marrom com o qual havia chegado em Paradise Lake, na tarde em que a nevasca havia comeado.
	No h nada de errado com elas  Louis respondeu.  So um pouco quentes para o clima daqui mas, afora isso, acho-as muito elegantes.
	Ento, qual  o problema?
	Gostaria que voc vestisse algo mais adequado a uma cerimnia de casamento.  Na verdade, o que Louis realmente desejava era dar um presente a Jade. Mas sabia que, se lhe contasse, ela recusaria.  Alm do mais, ns temos a audincia, depois.
	De fato  ela concordou, pensativa.  Talvez essas roupas sejam excessivamente esportivas, para o ambiente austero de um tribunal.
	Tambm vou precisar de roupas novas  Matthew interveio. Estava muito bonito em seu conjunto de cala e colete de brim azul-claro, com uma camisa xadrez azul e branca que combinava perfeitamente. Imitando o tom srio de Jade, concluiu:  No posso entrar assim num tribunal.
Ambos riram. E Louis afirmou:
	J entendi o recado, parceiro.
	Oba!  Matthew exclamou, radiante.  Eu e Jade vamos ganhar roupas novas! E voc?
	Eu irei com essas, mesmo.
E nem precisava de outras, Jade pensou, observando-o com ateno. Louis estava impecavelmente vestido. Havia tirado o casaco de l, que j no era necessrio no clima um pouco mais quente e seco de Reno.
As calas pretas caam-lhe com perfeio, bem como a camisa cor de areia, cujo colarinho aberto ficava por cima da gola do blaser. Mocassins pretos completavam o traje, que no poderia ser mais sbrio nem mais elegante.
	Realmente, voc  o nico de ns que no seria barrado num tribunal  Jade gracejou.
	Coitado de voc, Louis  disse Matthew.
	Coitado por qu, meu bem?  Jade perguntou.
	Porque ele no vai ganhar roupas novas, oras.
	Dar presentes  to bom quanto ganh-los, parceiro Louis sentenciou.
	Ser?  Matthew franziu a testa, com uma expresso de dvida.
	Pode apostar que sim.
Cerca de meia hora depois, os trs retornavam pelo mesmo caminho, rumo  capela onde se realizaria o casamento.
Jade, usava um vestido azul-claro, de malha prpria para a meia-estao. O modelo, de corte simples, denotava um extremo bom-gosto. Era cingido na cintura por uma larga faixa, do mesmo tecido, porm ligeiramente mais escura. Ao redor do decote discreto, delicadas aplicaes de seda valorizavam ainda mais o traje. A saia god emprestava-lhe uma leveza sutil. E um estilista famoso o assinava.
O vestido havia custado caro. E apesar dos protestos de Jade, Louis o comprara sem pestanejar, bem como os adereos: sapatos, bolsa, meias e at um finssimo cordo de prata, que vinha dar o toque final ao traje.
Quanto a Matthew, estava muito feliz com seu novo macaco de brim amarelo, com detalhes em branco e bon da mesma cor. Ele mesmo tinha feito questo de escolher o modelo. Louis e Jade haviam acatado a deciso, embora o estilo esportivo no fosse nada adequado a um tribunal... Mas, para as crianas, essa regra no valia. Felizmente, pois o pequeno Matthew estava se achando muito elegante. E at perguntou a Jade se o juiz faria algum comentrio sobre seu macaco.
	Como posso saber, meu anjo?  ela respondeu, rindo.
O casamento foi realizado em menos de quinze minutos, na capela prxima ao aeroporto.
Jade jamais imaginara que uma cerimnia to importante pudesse acontecer assim, de maneira fria e impessoal, sem a menor emoo. Era como se ela e Louis estivessem assinando um contrato de locao de um imvel.
E ainda por cima havia uma fila de pessoas esperando para se casarem.
Se aquilo era um casamento, ento ela sempre estivera enganada a respeito. Era sobre isso que Jade meditava, quando o oficiante da cerimnia pediu as alianas para Louis.
"Esquecemos de compr-las", ela pensou, sobressaltada. S faltava a cerimnia ser cancelada, por culpa de um par de alianas baratas.
Mas, para sua surpresa, Louis fez um sinal a Matthew, que retirou do bolso um pequeno estojo de veludo bege. Abriu-o diante de Louis, que pegou uma aliana cravejada de diamantes e colocou-a delicadamente no anular esquerdo de Jade. Ela o fitou, boquiaberta, como se no acreditasse no que estava vendo.
	Por favor, queira fazer o mesmo  o oficiante interveio, num tom solcito.
	Oh, claro!  Ela obedeceu.
E o casamento estava consumado.
	Foi uma surpresa e tanto  Matthew comentou, animado, durante o curto trajeto de volta ao aeroporto.
	Eu bem que avisei que ela ia ficar espantada  disse Louis.
	Do que esto falando?  Jade perguntou.
	Das alianas que ns compramos enquanto voc estava na butique, experimentando o vestido  Matthew respondeu.
	Por que fez isso, Louis?  ela indagou, olhando para a jia.  Gastou uma pequena fortuna apenas para uma encenao.
	Fique com ela  Louis pediu, voltando-se por um instante, para fit-la.  E uma lembrana minha e de Matthew.
	Mas eu no posso...
	Por favor, Jade  o menino interveio.  Ns compramos com tanto carinho.
	Falou bem, parceiro.  Louis sorriu para o garoto. Tinha acabado de estacionar no ptio da agncia de locao de veculos. Depois fitou Jade no fundo dos olhos:  Por favor, no recuse o presente. Guarde-o como um smbolo de nossa gratido, pela preciosa ajuda que est nos prestando.
	Ainda no sabemos se realmente ser preciosa  ela contraps, com um suspiro.  S teremos certeza disso se ganharmos a causa.
	Diga quando ganharmos e no se ganharmos  Louis corrigiu-a, com um sorriso cheio de confiana.  Bem,  hora de embarcarmos. O vo para San Francisco est marcado para daqui a vinte minutos. Vocs querem fazer um lanche, ou almoaremos no avio?
	No avio  mais gostoso  Matthew opinou. E os adultos acataram a deciso.
	Como vai, Kelly?  Louis cumprimentou a advogada, que o aguardava  porta do tribunal.  Estamos em cima da hora, no ?
	Nem tanto. Ainda faltam alguns minutos para o incio da audincia.
Kelly Moore era uma mulher baixa, na faixa dos trinta anos. No tinha uma beleza clssica, mas era encantadora e despertava simpatia. Sorrindo para Matthew, cumprimentou-o:
	Ol, querido.
	Oi, Kelly  o menino respondeu, retribuindo o sorriso, para em seguida perguntar:  Voc vai me fazer aquele monte de perguntas novamente?
	Hoje no, gracinha.
	Ainda bem.
	Mas  provvel que o juiz o chame, durante a audincia. E voc s precisar prestar bem ateno s perguntas, para respond-las da forma que achar melhor.
	Est bem.
	Quero apresent-la a Jade  disse Louis.
	Al, Jade.  A advogada sorriu.  Ns j nos conhecemos, por telefone.
 
	Isso mesmo.  Jade estendeu a mo.   um prazer conhec-la pessoalmente.
	O prazer  meu, Jade...
	Adams Mathieson  Louis apartou.  Este  seu nome completo.
	Mathieson?  Kelly repetiu, intrigada.  No sabia que voc tinha uma irm, Louis.
	E no tenho  ele explicou, com um sorriso.  Jade  minha esposa.
	Como?  Kelly espantou-se.
	Ns acabamos de nos casar, no Reno  Louis informou-a.
	Ora, mas isso  maravilhoso!  a advogada exclamou, triunfante.  Agora estaremos em p de igualdade com os Turner.
	Espero que sim  Jade interveio.  Voc disse que se Louis se casasse, tudo seria mais fcil.
	Claro.  Kelly estava aliviada.  Para ser franca, eu no acreditava que ele tivesse muita chance... Mas agora o caso muda de figura. Puxa, at me sinto mais confiante para fazer a defesa!
	Tambm estou com o palpite de que sairemos vitoriosos  Louis afirmou, esperanoso.
	Bem, vamos nos sentar?  Kelly apontou um banco, no saguo do tribunal.
	Sim  Louis concordou, enlaando Jade pelo ombro e tomando a mo de Matthew.
"Preciso ser forte", Jade recomendou-se, em pensamento. O simples toque da mo de Louis sobre o ombro causava-lhe uma emoo indescritvel.
Como lidar com seus sentimentos? Como controlar-se para no cair novamente cativa daqueles olhos azuis que tanto amava?
"S mais algumas horas", ela disse para si. "E ento tudo estar resolvido. Da poderei voltar a Portland e terei tempo de sobra para acalentar as lembranas desses dias movimentados, plenos de surpresas e emoes."
	Oh, Matthew, meu pobre garotinho!  exclamou uma voz feminina, um tanto estridente, arrancando Jade das diva gaes.  Deixe-me olhar para voc...
Jade voltou-se e deparou com uma mulher de meia-idade, excessivamente magra, que inclinava-se na direo de Matthew com uma expresso emocionada. A seu lado, um homem alto e calvo parecia um tanto constrangido com a cena.
Era fcil concluir de quem se tratava: Brbara e Alex Turner, naturalmente. Difcil era crer que Brbara fosse irm de Nina, a me de Matthew.
Jade lembrava-se de ter visto Nina, algumas vezes... Uma garota elegante, alegre e cheia de vida, que em nada assemelhava-se quela mulher de tailleur cinza-chumbo, de ar severo e nem um pouco simptica.
	Voc se lembra de titia Brbara e titio Alex, no ?  a mulher continuava a falar, num tom excessivamente meloso, que chegava a soar falso.  Por favor, querido, diga alguma coisa.
Matthew no respondeu. Apenas abraou Louis, escondendo o rosto.
	Diga al para seus tios, parceiro  Louis sugeriu, num tom carinhoso.
	Al...  Matthew resmungou, sem se voltar.
Brbara Turner fitou Louis com hostilidade, como se o culpasse pela atitude do menino.
	Por que est me olhando assim, sra. Turner?  ele indagou.  No ouviu o que eu disse a Matthew?
	O senhor o instruiu para ficar contra ns  Brbara acusou-o, entre os dentes.
	Que absurdo!  Jade exclamou, chocada.  De onde a senhora tirou essa ideia maluca?
	Oh, por favor, nada de discusses aqui fora  Kelly interveio, aborrecida.  Isso s servir para exaltar os nimos e em nada nos ajudar.
Ignorando acintosamente a recomendao, Brbara exclamou, indignada:
	Colocar uma criana inocente contra os prprios tios! Isso  um verdadeiro crime.
Louis cruzou os braos. Decididamente, aquela mulher sabia como tir-lo do srio.
	Senhora, ns sabemos muito bem que, se algum aqui est com intenes criminosas, no sou eu.
	No entendi sua insinuao.  Alex Turner entrou na discusso.
	No estou insinuando, mas sim dizendo que estranho muito o fato do senhor e sua esposa s terem se preocupado com Matthew agora, um ano aps a morte de seus pais  Louis afirmou, pronunciando bem cada palavra.  O que motivou este sbito interesse, sr. Turner?
Alex Turner empalideceu.
	Eu no admito esse tipo de acusao.
	Sossegue, sr. Turner  Kelly tornou a intervir.  Meu cliente no lhe fez acusao alguma.  Dirigindo-se a Louis, pediu:  Por favor, no responda s provocaes.
	Quem comeou foi ele!  Brbara exclamou, num tom spero.
Louis sorriu:
	Bem, Kelly, vou aceitar seu conselho.
 Assim  que se fala, meu caro  a advogada aprovou. Um funcionrio do tribunal aproximou-se para anunciar:
	Queiram entrar, senhoras e senhores. O juiz Andrew
Mackenzie est  espera.
Brbara e Alex Turner seguiram a passos largos em direo  sala. Um homem jovem, usando um impecvel terno marrom, esperava-os  porta.
	Aquele  Bernard Lester  Kelly apontou-o discretamente e explicou:  Advogado dos Turner.
	Competente?  Louis indagou, preocupado.
	Muito. Mas agora temos mais chances de vencer.  Kelly sorriu.  Alm do mais, acho que a sorte est do nosso lado.
	Por que diz isso?  Jade perguntou.
	Porque o juiz que vai presidir a audincia  um homem justo e ntegro.
	Como, alis, todos os juizes deveriam ser  Jade comentou. 
	 verdade. Vamos?
	Vamos  Matthew, de mos dadas com Jade e Louis, parecia confiante.
	Vai dar tudo certo  Kelly afirmou.
Louis e Jade entreolharam-se. Ele sorriu, como para dar-lhe confiana. Mas nos olhos azuis havia uma inequvoca expresso de medo. E no era para menos. Afinal, o destino do pequeno Matthew estava em jogo.
	Jade, voc vai sentar perto de mim?  o menino perguntou.
	Claro, querido  ela respondeu, acariciando-lhe os cabelos.
Ficando um pouco para trs, Louis confidenciou a Kelly:
	H mais uma coisa que eu gostaria de esclarecer.
	Qual?
	Meu casamento com Jade ... fictcio.
	Como?  Kelly surpreendeu-se.  Vocs no se casaram oficialmente?  Claro que sim  ele apressou-se a dizer.  Mas isso  tudo. Em outras palavras, nosso casamento  apenas um arranjo, para garantir mais chances na audincia.
	Eu no ouvi isso, Louis Mathieson  Kelly piscou-lhe um olho.
	Como?
	No quero saber nada sobre esse assunto.
	Ainda no entendi.
	Para mim, voc e Jade formam um casal perfeito, capaz de proporcionar a Matthew todo o equilbrio e felicidade que ele necessita.
"Seria bom se fosse verdade...", Louis pensou, com um suspiro.
	Voc compreende, no?  Kelly continuou.  Meus argumentos sero muito mais convincentes, se eu acreditar que voc e Jade se casaram de verdade e que se amam loucamente. Isso no apenas soar romntico, mas tambm marcar pontos importantes para ns.
	Voc  impagvel, Kelly Moore  Louis comentou, sorrindo.
	Sou apenas uma advogada tentando fazer seu trabalho da melhor forma possvel, meu caro  ela retrucou, no mesmo tom, enquanto ambos entravam na sala.  A sorte est lanada  disse, em voz mais baixa.

CAPITULO IX

O juiz Andrew Mackenzie era um homem robusto, de sessenta e cinco anos, cabelos grisalhos e olhar bondoso. Estava sentado  mesa e tinha diante de si a pasta do processo. A seu lado, num plano mais baixo, uma escriv j se encontrava a postos, diante de uma mquina de escrever, para anotar tudo o que seria falado na audincia.
 Boa tarde  o juiz lanou um cumprimento geral.  Por favor, acomodem-se.
Jade sentou-se na primeira fileira de cadeiras, ao lado de Matthew. Louis e a dra. Kelly Moore juntaram-se a ambos.
Os Turner, juntamente com o dr. Bernard Lester, ocuparam o lado oposto da sala.
O juiz deu incio aos trabalhos:
	Bem, podemos comear.
	Peo a palavra, Meritssimo  disse Kelly, com uma voz empostada e forte.
	 sua, doutora  Andrew Mackenzie assentiu.
	Com o devido respeito, meu cliente deseja fazer um protesto contra o Estado, aqui representado por Vossa Excelncia.
	Um protesto?  O juiz franziu a testa, visivelmente surpreso.  Pensei que o seu cliente estivesse sendo processado...
Enganei-me, dra. Moore?
	No, Meritssimo  Kelly respondeu, tomando flego.  A questo  que ele sente-se aborrecido por ter sido obrigado a vir aqui, lutar por algo que j conseguiu, ou seja: a custdia de Matthew Carmichael. Meu cliente no entende o porqu desta audincia, j que faz um ano que ele vem cuidando do pequeno Matthew, com o carinho e dedicao de um pai. Acho tambm importante frisar que o menino tem sido privilegiado com um nvel de vida bastante confortvel.
Puxa vida...  Matthew cochichou ao ouvido de Jade. Ela est uma feral
Psiu, querido  Jade repreendeu-o, num tom carinhoso. Ns no podemos fazer comentrios durante a audincia.
	Assim...  a advogada continuava, com veemncia  meu cliente no v motivos para a existncia da presente audincia, que pretende contestar o que a prpria lei deste Estado j lhe concedeu h um ano. E, pelo que me consta, esse tipo de incoerncia  inconcebvel nas leis do nosso pas... Ou ao menos deveria ser!
	Seu protesto est devidamente anotado  disse Andrew Matthew.

	Obrigada, Meritssimo  Kelly voltou a sentar-se.
O juiz ento dirigiu-se ao advogado dos Turner:
	Dr. Bernard Lester, o que tem a dizer sobre isso?

	Discordo plenamente da dra. Kelly Moore, quando contesta o motivo desta audincia. Pois meus clientes tiveram um nobre motivo para solicit-la.
	E que motivo seria esse, dr. Lester?  o juiz indagou, num tom paciente.
	Preocupao com o bem-estar de Matthew Carmichael, Excelncia  o advogado sentenciou, lentamente.  Em outras palavras, meus clientes acham que ele no est recebendo os cuidados e o carinho necessrios a um menino de sua idade.  Alis, temos informaes fidedignas de que o sr. Louis Mat-
hieson passa muito tempo fora de casa. Costuma demorar dias e at semanas, para voltar. E isso, naturalmente, o impede de dar a devida ateno ao garoto.
	E sua vez  Kelly sussurrou a Louis.
De fato, o juiz chamou-o em seguida:
	Muito bem, sr. Louis Mathieson... O senhor concorda com essa afirmao?
	De modo algum, Meritssimo  ele respondeu, categrico. 	Em primeiro lugar, quero esclarecer que s me ausento de casa para trabalhar. Quanto s minhas horas de lazer, prefiro compartilh-las com Matthew.
O juiz fez um gesto de assentimento e pediu:
	Continue, por favor.
	H cerca de um ano, quando Matthew foi morar comigo, tirei dois meses de frias. Fiz isso para ter mais tempo de me dedicar a ele.
	E depois, senhor?  o juiz indagou, num tom delicado, mas firme.  Como conseguiu conciliar seus compromissos profissionais e os cuidados com o pequeno Matthew?
	Contratei uma governanta. E cheguei a abrir mo de vrios trabalhos, fora do Estado, para no negligenciar minha responsabilidade com Matthew.
	Peo um aparte, Meritssimo  disse Bernard Lester.
	Concedido, doutor  Andrew Mackenzie aquiesceu.
	Permita-me inform-lo de que j faz quase um ms que a governanta contratada pelo sr. Louis Mathieson se demitiu.
O juiz ergueu as sobrancelhas, voltando-se para Louis com uma expresso interrogativa.
"Como  que descobriram isso?", Louis se perguntou, lanando um olhar a Kelly Moore, que naquele momento nada poderia fazer para ajud-lo. Imprimindo  voz uma segurana que estava longe de sentir, ele argumentou:
	Eu ia chegar nesse ponto, se o dr. Bernard Lester no me interrompesse.
	Pois ento esclarea-nos, senhor  o juiz ordenou, tirando os culos.

	A sra. Jenniffer Stone, uma governanta excelente por sinal, precisou partir para ajudar a filha, que teve trigmeos. Imediatamente, coloquei anncio em vrios jornais, solicitando uma nova governanta. Mas no  fcil encontrar uma pessoa adequada para cuidar de um garoto que amo como um filho...
	Muito bem, Louis  Jade disse baixinho.
	Psiu  Matthew repreendeu-a, levando o dedo indicador aos lbios.  A gente no pode falar, lembra?
Ela acenou a cabea em concordncia. E voltou a concentrar-se nas palavras de Louis:
	Nas ltimas semanas, Matthew tem ficado no centro de convivncia infantil da emissora onde trabalho, em Nova Orleans. Monitoras especializadas do-lhe a assistncia necessria, bem como uma srie de atividades ldicas. Mas, natural mente, este  um arranjo temporrio que logo ser suspenso...
	Assim que o senhor contratar uma nova governanta  o juiz completou.
	Exato, Meritssimo.
	Certo, ns j entendemos esta parte.
	Minha cliente gostaria de ser ouvida, agora  Bernard Lester interveio.
	Pois no?  O juiz voltou-se para Brbara, que se levantava para falar.
	Meritssimo, estou francamente chocada.  Olhando com hostilidade para Louis, acrescentou:  Deixar uma pobre criana de seis anos aos cuidados impessoais de uma governanta, j no me parece adequado. Mas jog-la numa creche de empresa durante o dia inteiro...  um crime!
Louis fechou os olhos por um instante. Estava prestes a perder a pacincia, mas lembrava-se muito bem da recomendao de Kelly: era preciso manter o controle, a qualquer custo.
	O que o menino precisa...  Brbara prosseguia   de um lar estvel, equilibrado, que lhe proporcione no apenas conforto, mas tambm amor. E  exatamente isso que eu e meu marido, Alex Turner, queremos lhe dar.
	Matthew j vive num lar estvel e equilibrado, Excelncia 	Louis apartou.
	Ora, no me faa rir  Brbara o desafiou.  O senhor no tem condies de oferecer um lar a Matthew Carmichael. Uma casa, talvez... Mas um lar... Nunca!
	Sra. Brbara Turner  o juiz advertiu-a.  Por favor, controle-se. E dirija-se apenas a mim ou a seu advogado. Entendido?
	Sim, Meritssimo  Brbara aquiesceu.
	Otimo. Pode sentar-se agora, por favor.
	Mas eu ainda tenho algo a dizer.
	Seu advogado cuidar disso, senhora  Andrew Mackenzie retrucou, num tom severo. Ento voltou-se para Louis:
	O senhor tambm pode voltar a seu lugar.
Louis quis protestar, mas seria perda de tempo. Assim, decidiu acatar a ordem do juiz.
	Peo a palavra, Meritssimo  Kelly e Bernard manifestaram-se quase ao mesmo tempo.
	Depois, doutores  Andrew Mackenzie recusou.  Nomomento, sou eu quem tem algo a dizer. Olhando para Louis Mathieson, comeou:  Admiro profundamente sua dedicao a Matthew Carmichael. Pelo que consta no processo, o senhor era amigo dos pais dele. Certo?
	Sim, Excelncia. E dei-lhes minha palavra de que cuidaria de Matthew, caso...
	Eu compreendo  o juiz interrompeu-o, num tom amvel.
	Entretanto, sr. Louis Mathieson, a lei de adoo  muito clara. As pessoas unidas ao menor por laos de sangue tm prioridade. No caso, a sra. Brbara Turner e seu esposo, alm de parentes de Matthew Carmichael, esto em posio de vantagem devido ao fato de serem casados. Ou seja: eles podem oferecer a estrutura de um lar ao menino. E um lar  composto por me, pai e filhos.  O juiz fez uma pausa.  Entende o que quero dizer, sr. Mathieson?
Louis assentiu com um gesto de cabea. Matthew ergueu a mo para dizer algo, mas Jade o impediu a tempo. Os Turner encaravam Louis com ar de triunfo, dando a causa j como ganha.
	Pois bem...  o juiz continuou  o senhor nem sequer  casado.
	Peo novamente a palavra, Meritssimo  Kelly interveio.
	E asseguro-lhe que tenho um esclarecimento muito importante a fazer.
	Espero que seja claro o suficiente para justificar esta nova interrupo.  O juiz fitou-a, aborrecido.
	E de fato , Excelncia  Kelly assegurou, antes de anunciar:  No tenho dvidas em afirmar que meu cliente pode oferecer um lar tradicional a Matthew, juntamente com sua esposa, aqui presente...  E apontou Jade.  Caso algum duvide dessa afirmao, poder ver a certido de casamento, que estar  inteira disposio para...
	Como?  o advogado dos Turner apartou, espantado.  Mas pelo que me consta o sr. Louis Mathieson  solteiro.
	Ele deve ter se casado s pressas, s para fazer essa representao, aqui no tribunal  Brbara quase gritou, encarando Jade com raiva.  Alis, essa a deve ser uma oportunista, encontrada Deus sabe onde...
	Controle-se, querida  Alex Turner repreendeu-a, visivelmente envergonhado.
	Sugiro-lhe que acate o conselho de seu marido, senhora 	o juiz ordenou, num tom severo.  Se perder o controle novamente, serei obrigado a pedir-lhe que saia da sala.
	Desculpe, Meritssimo.
	Desculpas aceitas  Andrew Mackenzie assentiu, impaciente.
O dr. Bernard Lester falou em voz baixa com Brbara por alguns instantes e ento argumentou:
	Gostaria que o sr. Louis Mathieson nos contasse h quanto tempo se casou. Pois tenho certeza de que ele era solteiro, no ms passado... E at na semana passada!  Antes que algum pudesse contestar, Bernard Lester acrescentou:  Suponho que o sr. Louis Mathieson deva estar desesperado. Tanto, que recorreu a esta...  Com um olhar de desdm, apontou Jade  esta... senhorita, quero dizer, senhora, para ajud-lo a manter a custdia de Matthew.
Kelly levantou-se para contestar, mas Jade foi mais rpida:
	Posso falar, Meritssimo?  perguntou, com uma calma que estava longe de sentir.
	Sim, senhora...
	Jade Adams Mathieson  ela apresentou-se.  De fato, eu e Louis Mathieson nos casamos h poucas horas.
	Eu no disse?!  Bernard Lester sorriu, triunfante.
	Mas acontece que nos conhecemos h muito tempo  Jade prosseguiu.  Comeamos a namorar exatamente h um ano e quatro meses. E podemos provar isso.
O juiz fitou-a com um misto de surpresa e simpatia.
	Agradecemos seu esclarecimento, sra. Mathieson  disse, num tom amvel.
	Posso dizer algo mais?  Jade pediu, num impulso.
	Sim, senhora.
	Gostaria de inform-lo que eu e Louis amamos Matthew Carmichael como se ele fosse nosso prprio filho. Apesar de no sermos unidos por laos de sangue, temos muito amor para lhe dar... Talvez at mais do que os verdadeiros parentes 	acrescentou, lanando um rpido olhar a Brbara e Alex. S ento finalizou:  Em resumo, Meritssimo, somos uma famlia. E  por isso que estamos aqui, hoje: para pedir-lhe que nos deixe continuar assim.
A agitao instalou-se no ambiente. Todos falavam ao mesmo tempo.
	Ela deve ser uma atriz contratada  Brbara comentou com o marido.
	Cuidado com o que diz, querida  Alex Turner a censurou.
	Voc foi simplesmente maravilhosa.  Louis parabenizou Jade, fitando-a com ternura e admirao.
	Nem eu teria conseguido instru-la de maneira melhor!  Kelly exclamou, entusiasmada.
Mas o cumprimento que mais comoveu Jade veio de Matthew:
	Puxa, voc falou bonito sobre esse negcio da gente ser uma famlia. Ser que pode repetir, depois?
	Silncio!  o juiz ordenou, elevando a voz por sobre o burburinho.  Silncio, por favor.  Todos se calaram. E s ento ele se pronunciou:  Ns, adultos, temos a estranha mania de achar que sempre sabemos mais do que as crianas. Isso no  verdade. Somos talvez mais perspicazes, dissimulados, maliciosos... Porm no mais sbios. Portanto, agora convido todos a ouvir, com ateno, a opinio do principal interessado no caso que estamos debatendo. Matthew Carmichael, por favor...
Matthew levantou-se, com uma expresso compenetrada no rosto angelical. O juiz Andrew Mackenzie olhou-o com bondade e carinho, por um longo momento. S ento disse:
	Suponho que voc seja um timo garoto. Caso contrrio, essas quatro pessoas no estariam lutando para ficar a seu lado. Mas e quanto a voc, Matthew Carmichael?  feliz com o sr. Louis Mathieson?
	Muito  o menino respondeu, sem hesitar.  E agora a vida vai ficar ainda melhor, pois Jade est do nosso lado.
	Oh, voc acha isso?  o juiz indagou, com um sorriso.
	Acho, no  Matthew respondeu, imitando uma expresso que Louis costumava usar.  Tenho certeza, senhor.
	Chame-o de Meritssimo ou Excelncia, querido  Kelly recomendou.  Lembra-se do que lhe ensinei?
	Ela parece t-lo instrudo a respeito de outras coisas, tambm  Brbara comentou, num tom rspido.
O juiz tornou a colocar os culos. E dessa vez sua voz no soou nada amvel:
	Sra. Brbara Turner, esta  a ltima advertncia que lhe fao. A senhora deve dirigir-se apenas a mim e somente quando for solicitada. Se pronunciar mais uma palavra ofensiva nesta sala, ser convidada a se retirar, sem direito a apelao. Fui claro?
	No se preocupe, Meritssimo  Bernard Lester apressou-se a dizer.
 Quem deve preocupar-se  o senhor, dr. Lester  o juiz rebateu, num tom seco.  Sua cliente est se tornando inconveniente.
	Pois garanto-lhe que ela permanecer em silncio, a partir deste momento, at o final da audincia.
	Otimo  Andrew Mackenzie assentiu.  Vamos ver se conseguir manter sua palavra.
Jade olhou para Brbara, que parecia prestes a ter um ataque de nervos. E por um instante condoeu-se daquela mulher agressiva, que devia ser muito infeliz... Talvez por isso agisse assim.
	Acho que agora voc pode continuar, pequeno Matthew  disse o juiz. E por favor esquea as recomendaes da dra. Kelly Moore, sobre o modo como deve tratar-me.
	Sim, Excelncia  o menino respondeu, provocando o sorriso dos adultos, inclusive do prprio dr. Bernard Lester. Olhando para todos, sem entender, indagou:  Eu disse alguma coisa errada, Meritssimo?
	No, Matthew  o juiz afirmou, evidentemente encantado com o garoto.  Est tudo bem. Por favor, conte-nos sobre sua vida com Louis.
	Ah, ns somos muito felizes. Perdi minha mame e meu papai, sabe? No comeo, quando fui para a casa de Louis, eu chorava muito. Mas Louis sempre me consolava, falando que tambm gostava muito deles e que morria de saudades. Hoje eu j estou melhor e ns at falamos sobre mame e papai, s vezes.  Matthew fez uma pausa.  Ah, j ia me esquecendo de dizer que Louis me levou para passear por muitos lugares bonitos e que me ensinou a jogar xadrez, tambm.
	E voc no fica triste quando Louis precisa deix-lo, para ir trabalhar?
	No, porque a sra. Jenniffer Stone, nossa governanta, me fazia companhia. Eu gostava dela e ainda gosto muito.
	E agora, que a sra. Jenniffer Stone j no est mais com vocs?
	Eu fico l no centro de...  Matthew interrompeu-se e perguntou:  Como  mesmo o nome, Louis?  Convivncia  Louis respondeu, comovido.  Centro de Convivncia Infantil da Emissora PRK-30, Nova Orleans.
	E isso.  E Matthew continuou:  Eu passo o dia l, brincando com as tias, que sabem muitos jogos novos. Mas no ano que vem irei  escola e a j no terei tempo de ficar o dia inteiro l.
O juiz considerou as palavras de Matthew por alguns instantes e depois perguntou:
	Diga-me, voc no gostaria de ficar com tia Brbara e tio Alex por um tempo, s para experimentar e...
	No  Matthew o interrompeu, franzindo o cenho.
	Por qu?  o juiz insistiu.  Seus tios demonstram gostar muito de voc.
	Pode ser... Mas eu no gosto muito do jeito deles. Tambm,  a primeira vez que eles aparecem, desde que mame e papai morreram. Eu j nem lembrava direito de como eram...
	Certo.  O juiz voltou-se para Bernard Lester.  Tem algo a dizer sobre isso, doutor?
	Sim  o advogado respondeu, um tanto inseguro.  Na verdade, eu ia mesmo solicitar um aparte.
	Concedido  disse o juiz.  Explique-nos por que seus clientes conformaram-se em ficar tanto tempo sem notcias do sobrinho.
	Por um motivo muito simples, Meritssimo: eles no tinham ideia de onde Matthew se encontrava.
	Protesto, Meritssimo  Kelly Moore ergueu-se juntamente com Louis, que dizia-lhe algo ao ouvido.
	Pode falar, doutora  o juiz assentiu.
	Meu cliente afirma que deu seu endereo a Brbara e Alex Turner por ocasio do funeral de Nina e Philip Carmichael. Sustenta tambm que ambos nunca telefonaram nem escreveram a Matthew, nem tampouco se importaram em saber se ele estava bem.
	Protesto!  disse Bernard Lester.
	Negado  o juiz respondeu, com os olhos fixos em Kelly.  Prossiga, doutora.
Obrigada, Excelncia. Bem, quero apenas colocar um ltimo argumento... Supondo-se que Louis Mathieson estivesse mentindo, o casal Turner poderia ter localizado o sobrinho, se assim o quisesse. Afinal, Louis Mathieson  uma pessoa pblica. Todos neste pas j viram ao menos uma de suas reportagens feitas especialmente para a tev. Assim, no seria difcil ligar para a emissora para a qual ele trabalha e conseguir o contato.
	Muito bem.  O juiz olhou para todos os presentes e voltou a se deter em Matthew.  Obrigado por tudo o que nos disse, rapazinho. Voc realmente nos esclareceu muitos pontos.
De nada  o menino respondeu, inocentemente.
Bernard Lester tentou intervir mais uma vez:
	Meritssimo, esse ponto que a dra. Kelly Moore acaba de erguer deve ser discutido...
	Um momento, doutor  Andrew Mackenzie ergueu a mo, num gesto peremptrio.  Eu ainda no terminei.
	Desculpe-me, Excelncia.  O advogado suspirou, evidentemente desolado.
O juiz tornou a erguer a voz:
	Acho que j cheguei a uma concluso. Na verdade, sou obrigado a concordar com o que a dra. Kelly Moore nos disse, no incio da audincia... Pois tambm no tenho ideia do porqu de estarmos aqui, contestando uma sentena dada pelo prprio Estado, h um ano. Uma sentena que assegura, a Louis Mathieson, a tutela de Matthew Carmichael. E que assim dever continuar, at que o menino complete a maioridade. Isso  tudo, senhoras e senhores.
	Quer dizer que ns ganhamos?  Matthew perguntou.
	Acho que pode-se dizer assim, querido  Kelly respondeu, emocionada.
Jade fitou Louis com os olhos rasos de lgrimas. Queria falar algo mas, se o fizesse, comearia a chorar ali mesmo.
	Ns vamos recorrer  Brbara prometeu, num tom ameaador, a caminho da porta. O marido e o advogado tentavam acalm-la.
Louis e Jade se abraaram, dizendo com aquele gesto o que as palavras no conseguiriam.
	Ei vocs esto se esquecendo de mim  Matthew protestou.
	Imagine, parceiro!  Louis ergueu-o nos braos e Jade beijou-o em ambas as faces.
Ento sentiu um toque no brao. Era Kelly:
Por favor, poderamos conversar por um instante?
	Oh, claro  Jade concordou, curiosa.
	E segredo?  Louis indagou, com um sorriso.
	Assunto de mulheres  Kelly respondeu, no mesmo tom.
	Nesse caso, eu e Matthew iremos andando mais devagar.
Caminhando em direo  sada, Kelly e Jade afastaram-se.
	Quero lhe dar os parabns  disse Jade.  Sua atuao foi brilhante.
Obrigada. Mas voc fez muito mais do que isso.
Como assim?  Jade indagou, sem entender.
	O modo como se portou, durante a audincia, foi absolutamente notvel. Mas confesso que a admiro ainda mais por uma outra coisa.
	Qual?  Jade perguntou, sorrindo.
	Sua deciso de casar-se com Louis de repente, s para ajud-lo...  Kelly interrompeu-se, emocionada.  Bem, acho que no preciso dizer que teramos perdido a causa, se no fosse por isso.
	Ora...  Jade estava lisonjeada.
	No reaja como se esse elogio fosse excessivo, pois ambas sabemos que no .  Kelly fez uma pausa. '- Bem, eu queria parabeniz-la pessoalmente.
	Obrigada  Jade agradeceu, igualmente comovida.
	Afinal, voc foi a responsvel por mais uma causa ganha.  Kelly tentou gracejar.
Ambas j haviam atravessado o saguo do tribunal e agora chegavam  porta, onde um BMW acabava de estacionar.
	Ora, vejam s quem est a  Kelly exclamou, com um largo sorriso.
Jade j ia perguntar de quem se tratava, quando viu um homem sair do veculo, trazendo um beb nos braos.
	Quero apresent-la a meu marido, Peter Moore, e meu filho Jonathan.
Jade sorriu para o homem, que cumprimentou-a de modo polido e em seguida ergueu a manta que cobria o beb, para que ela pudesse v-lo.
	Oh...  Jade contemplou, comovida, aquele ser minsculo.  Quanto tempo ele tem?
	Trs meses  Kelly respondeu, orgulhosa.  Pode peg-lo, se quiser.
Peter entregou-lhe o beb, enquanto Jade sentia as lgrimas inundarem-lhe os olhos. Trs meses... Seria esta a idade de seu filho com Louis, caso ele houvesse vivido.
	O que foi?  Kelly indagou, preocupada.  Voc est... Emocionada  Jade completou, enxugando as lgrimas com um gesto nervoso.  Seu beb  to lindo!
Naquele momento, Louis e Matthew surgiram  porta.
	Peter!  Louis exclamou, aproximando-se, com a mo estendida num cumprimento cordial.   um prazer rev-lo.
	O prazer  meu, Louis. Bem, nem preciso perguntar qual foi o resultado da audincia. Pelo jeito de vocs...
	Ns ganhamos!  Matthew anunciou.
	Foi isso que imaginei, ao ver Kelly. Ela estava realmente preocupada com esse caso.
Os dois homens conversavam, interrompidos a todo momento por Matthew, que queria contar sua verso da audincia. Kelly tornou a puxar Jade de lado.
O que h com voc?  perguntou, num tom suave.
Jade entregou-lhe o beb:
	Oh, no  nada  respondeu, baixando os olhos. Nada mesmo.
	Talvez eu no tenha o direito de question-la... Mas acho que no foi apenas por emoo que voc comeou a chorar.
Jade fitou com simpatia aquela mulher admirvel e por um instante teve a sensao de conhec-la h muito tempo.
	Aconteceu h um ano  confessou, sentindo, que podia confiar em Kelly.  Eu, estava grvida de Louis... E perdi o beb. Ele teria exatamente a idade de seu filho, agora.
	Oh  Kelly murmurou, penalizada.  Sinto muito, Jade. Mas no se deixe abater dessa maneira. Voc ainda  jovem e poder ter outros filhos. Pense nisso, em vez de ficar sofrendo por algo irreversvel.
	Vou tentar.  Jade forou um sorriso.
	Assim  que se fala.  Kelly sorriu de volta, encorajando-a.
	Ei, deixe-me ver o beb  Matthew pediu, tocando-lhe o brao.
	Claro, querido.  Kelly abaixou-se, descobrindo o rostinho do pequeno Jonathan, que dormia serenamente.
	Puxa, ele  lindo!  o menino comentou, maravilhado.  E pensar que j fui desse tamanho...
	Jade...  disse Louis, aproximando-se.  Peter est nos convidando para conhecer sua nova casa.
	Otima ideia  Kelly aprovou. Sorrindo para o marido, comentou:  Eu no sabia que voc ia sair mais cedo, hoje.
	Nem eu  Peter explicou.  Tivemos uma reunio que, felizmente, terminou logo. E agora que tal se jantssemos todos juntos?
	Por mim, est bem  Louis opinou.
	Oba!  Matthew secundou.
Apenas Jade no se sentia com a menor disposio para o convvio social. Embora houvesse simpatizado muito com Kelly e o marido, preferiria v-los em outra ocasio. Estava exausta, desgastada emocionalmente e precisava de um pouco de solido para ordenar as ideias.
	Parece-me que nossa querida Jade prefere descansar  disse Kelly, adivinhando-lhe os pensamentos. ; Acertei?  Receio que sim  Jade confirmou, timidamente.
	Nesse caso, deixaremos o jantar para um outro dia  Louis props.
	De jeito nenhum  Jade discordou.  Afinal, voc e Matthew querem ir.
	Mas e voc?  Louis retrucou, fitando-a com infinito carinho. S agora reparava no quanto Jade parecia cansada.
	Eu me arranjo  ela respondeu, com um sorriso melanclico.  Irei para um hotel-e amanh cedo partirei para Portland.
	Tenho uma ideia  Kelly sugeriu.  Vamos todos para minha casa e l arranjarei uma sute onde Jade possa descansar. Enquanto isso faremos um jantar bem gostoso e, quando Jade acordar, ela talvez queira juntar-se a ns. Seno, lhe daremos uma mordomia e a deixaremos comer na sute. O que acham?
	Mas no quero lhe dar trabalho  Jade protestou.
	Ora, no ser trabalho e sim um prazer.
	Por favor, Jade  Matthew insistiu.  Se voc no for, ns tambm no vamos.
	Iremos  Louis o corrigiu.
	Ns tambm no iremos  Matthew repetiu, corretamente.
	Temos uma sute muito confortvel e aconchegante, no terceiro andar da casa  Kelly explicou.  L voc poder descansar tranquilamente. E ento, o que me diz?
	Voc aceitaria um no como resposta?  Jade indagou, com uma ponta de humor.
	No!  Kelly respondeu, rindo.
	Ento, vamos l  Jade concordou, por fim.
	No   toa que sua esposa quis ser advogada  Louis comentou com Peter, num tom alegre.
	Kelly foi feita sob medida para a profisso  Peter concordou.  Ela  capaz de convenc-lo de que a Terra  quadrada, em apenas alguns minutos.
	No duvido  Louis afirmou, divertido.

EPLOGO
Acasa dos Moore situava-se num bairro afas-Ltado de San Francisco, prximo ao horto florestal. Erguida em meio a um pequeno bosque, parecia repousar no colo das rvores.
To logo Kelly levou-a at a sute de hspedes, no terceiro pavimento, Jade deitou-se na cama e procurou relaxar.
Estava exausta e precisava se refazer. Depois, teria tempo de analisar tudo o que havia acontecido, desde o momento em que chegara a Paradise Lake.
Mas, no momento, no queria pensar... Apenas dormir.
O sono veio colh-la em poucos instantes, proporcionando-lhe o descanso merecido.
O som de uma batida  porta despertou-a. Mas Jade relutava em acordar. Ainda no havia descansado o suficiente. S desejava continuar dormindo, por muito tempo, para recuperar as foras.
Duas novas batidas, um pouco mais altas, seguiram-se  primeira. Abrindo os olhos, Jade consultou o relgio sobre o criado-mudo. Eram quase dez horas da noite. O tempo havia passado, sem que ela percebesse.
Agora as batidas soavam com mais insistncia.
J vou.  Jade elevou a voz e levantou-se rapidamente.
Abriu a porta e deparou com Louis.
Ele estava plido e a fitava de maneira incisiva.
Est na hora de irmos embora, no ?  ela disse, sonolenta.  Desculpe-me por no ter participado do jantar com
os Moore, mas eu realmente no me sentia com...
	Precisamos conversar  ele a interrompeu, num tom seco.
Estranhando aquela atitude, Jade deu-lhe passagem e fechou a porta. Ento indagou:
	O que aconteceu?
	Por que voc no me contou?  Louis respondeu com outra pergunta. Parecia transtornado e tinha uma expresso de mgoa nos olhos azuis.
	Contou...?  Jade repetiu, confusa.  Mas do que voc est falando, Louis?  Do aborto que voc sofreu, h um ano.
Jade arregalou os olhos:
	Como que...
	Kelly comentou comigo, mas no o fez por maldade. Naturalmente, ela no sabia que eu ignorava o fato.  Segurando-a pelos ombros, com um olhar desesperado, perguntou: Quando aconteceu?
	Na noite em que parti para Los Angeles, depois de voc ter rompido o nosso romance  ela respondeu, com voz trmula.
	Eu no rompi... Apenas disse-lhe que precisvamos de mais tempo.  Louis voltou-lhe as costas e caminhou at a janela, cujas cortinas estavam abertas. L fora a lua crescente destacava-se no cu.  Agora tudo se encaixa  murmurou, como se para si.  Voc no voltou a Nova Orleans simplesmente porque no podia faz-lo.  Virando,-se, encarou-a com um misto de revolta e angstia:  Eu tinha o direito de saber que estava grvida! Por que no me disse?
	Nem eu mesma sabia  Jade respondeu, com um suspiro, compreendendo que chegara o momento de abrir as cortinas do passado.  Comecei a sentir dores no avio, mas no tinha a menor ideia de que estava grvida. Foi s no hospital de Los Angeles' que os mdicos me esclareceram sobre o assunto. Disseram-me que aquelas dores poderiam ser prenncio de um aborto e...
	Oh, Deus!  Louis interrompeu-a, escondendo o rosto entre as mos.
	Fiquei em absoluto repouso durante trs dias, desejando ansiosamente que meu corpo retivesse o beb.  Jade tomou flego, para concluir:  Entretanto, apesar de tudo, acabei abortando. Da tive de passar mais alguns dias para me recuperar. Na verdade, s fui saber do acidente que matou Nina e Philip na semana seguinte.
Louis fitou-a com uma expresso de horror. E sua voz soou trmula, ao dizer:
Ento a culpa foi minha!
	O qu?  Fui eu que lhe causei o aborto.
	Imagine, Louis!  ela discordou, com veemncia.
	Voc perdeu o beb porque estava desesperada. E tudo por minha culpa, porque eu quis adiar o casamento!
Ele parecia to transtornado, que por um instante Jade esqueceu-se do prprio sofrimento.
Louis, pare de se torturar desse jeito.
Ignorando as palavras de Jade, ele confessou:
	Eu estava encurralado e no via como melhorar nossa situao.
	O que havia de errado conosco?  Jade indagou, um tanto confusa.  Ns amos nos casar e...
	Seramos infelizes  Louis completou.
	Voc seria  ela disse, com lgrimas nos olhos.  Eu, no. Pois s desejava viver a seu lado. Entretanto, no poderia obrig-lo a me amar.
	E nem precisaria, pois eu j te amava  Louis sentenciou.
Um sorriso amargo estampou-se nos lbios de Jade, ao comentar:
	Estranha forma de amar, a sua...
Louis aproximou-se e, fitando-a com intensidade, perguntou:   Tem certeza de que seria feliz comigo?
	Claro  ela respondeu, sem hesitar.
	E voc era feliz comigo?
- Sim.
	Olhe para trs, Jade... Lembre-se de que voc tinha aberto mo de sua individualidade, para viver em funo de mim. Lembre-se de que voc aos poucos foi se tornando desinteressante, pois no fazia outra coisa seno me esperar. Tinha largado os estudos, no se cuidava, gastava todo o seu tempo para orbitar em torno de minha vida, como um satlite em volta de um astro... Pense nisso tudo. E agora responda: voc era realmente feliz?
Ela reagiu, espantada.
	Nunca analisei a situao sob esse ngulo.
	Pois era s o que eu fazia, naquele tempo. Procurava, desesperadamente, um meio de convenc-la a retomar sua individualidade, a ser de novo a garota vibrante por quem eu havia me apaixonado. Mas voc tinha uma viso muito distorcida, sobre o amor. Achava que amar algum era abdicar de si mesma, anular-se, para fazer esse algum feliz.
Um longo momento se passou, antes que Jade falasse:
	Por que no tentou me falar sobre isso?  Antes que Louis respondesse, ela corrigiu-se:  Oh, no diga nada. Agora me lembro das muitas vezes em que voc me aconselhou a retomar os estudos, a fazer novas amizades, enfim... A cuidar de minha vida.
	Exato. S quem tem vida prpria pode trocar impresses, experincias, carcias... Este  o segredo da vida a dois. As pessoas no devem se anular, mas sim aprimorar-se cada vez mais, num crescimento dinmico e compartilhado. Jade concordou com um gesto de cabea. Quis dizer algo, mas a voz no lhe obedeceu.  Depois de muitas tentativas para faz-la reassumir sua prpria identidade...  Louis continuou  acabei me sentindo num beco sem sada. Por isso lhe propus que adissemos o casamento... Esperava que, com o tempo, voc mesma acabasse compreendendo que seu jeito de amar, apesar de sincero, era errado. Eu no queria uma mulher abnegada. Precisava, isso sim, de uma com panheira ativa, que me ajudasse a crescer.
	E eu era justamente o contrrio  Jade concluiu, num fio de voz.  E s o estava arrastando para trs, no , Louis?
	Voc estava se arrastando. E eu no podia permitir isso. Quando voc partiu, achei que fosse enlouquecer de saudade. Mas acompanhei sua carreira  distncia.  Ele fez uma pausa e sorriu.  Quando soube de suas conquistas, senti um certo alvio. Voc estava novamente retomando a direo de sua vida... E isso compensava em parte meu sofrimento. Antes sab-la inteira e forte longe de mim, do que infeliz e fraca, a meu lado.
Jade olhou-o com perplexidade.
	Voc est me dizendo que...
	Eu precisava deix-la ir, apesar de am-la como jamais amei ou amarei ningum. Voc tinha de ser dona de si mesma, Jade Adams.
	E agora sou  ela afirmou, fitando-o com ternura.  Talvez deva agradec-lo, Louis Mathieson.
	No.  Ele meneou a cabea.  Deve agradecer apenas a voc mesma. Tudo o que fiz foi soltar o lao que a prendia a mim... Embora isso tenha me custado tanto.
	Foi muito difcil aprender a viver sem voc  ela confessou, com lgrimas nos olhos.
	E agora, que voc j sabe... Poderamos tentar novamente, Jade?
	Como?
Tomando-lhe a mo entre as suas, Louis explicou:
	Estou lhe pedindo para viver comigo, para resgatar a felicidade que perdemos, simplesmente porque no estvamos preparados para ela.
	Louis!  ela exclamou, invadida por uma onda de felicidade.  Voc est falando srio?  Nunca falei to srio em minha vida, Jade Adams Mathieson.
	Ento, diga as trs palavras que tanto sonho em ouvir.
	Eu te amo  Louis declarou, com um sorriso.  E s no a peo em casamento, porque j somos casados.
	Eu tambm te amo, Louis. E tomara que isso no seja um sonho...
O beijo que selou aquelas palavras era bem real. E Jade compreendeu que, agora, a felicidade viera para ficar.
H quanto tempo no se sentia assim, plena de vontade de viver! Era nisso que Jade pensaria, se tivesse tempo de raciocinar.
Mas a emoo tomava todo o espao. Em meio a beijos prolongados e ardentes, gestos trmulos para livrar-se das peas de roupas, palavras apenas sussurradas... Em meio a tudo isso Jade e Louis se amavam, buscando-se, redescobrindo-se, como se quisessem retomar o tempo perdido.
Mas teria sido realmente perdido? O amor no continuara tecendo suas linhas, durante aquele ano de sofrimento e descobertas?
Quem saberia dizer...? Quem poderia explicar as artimanhas do destino?

FIM



